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2 anos em Hong Kong sem patrocinador

O Top Talent Pass dá 24 meses para procurar emprego na cidade, sem oferta assinada, a quem tem salário alto ou diploma do top 100.

Torres de Central e o porto de Victoria vistos do alto do Victoria Peak, em Hong Kong.

Hong Kong vista do Victoria Peak

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A 552 metros de altitude, no alto do Victoria Peak, a ilha de Hong Kong aparece inteira lá embaixo. As torres de Central descem até a água, e do outro lado do porto, a menos de 2 quilômetros em linha reta, Kowloon se espalha até as montanhas verdes do norte.

Naquelas torres trabalham bancos, seguradoras, escritórios de advocacia e empresas de logística que atendem a China continental e o resto da Ásia. A cidade tem pouco mais de 7 milhões de habitantes e mercado de trabalho em inglês e cantonês, com imposto de renda pessoal limitado a uma alíquota máxima de 15% na faixa padrão.

Entre 2020 e 2022, Hong Kong perdeu gente. A pandemia fechou a fronteira por quase três anos, e muitas famílias de profissionais estrangeiros e locais fizeram as malas.

A resposta do governo veio num programa de imigração com uma regra rara. Para entrar pela porta mais comum do mundo do trabalho, o estrangeiro precisa de uma empresa disposta a patrociná-lo. Em Hong Kong, desde dezembro de 2022, uma parte dos estrangeiros dispensa esse passo.

O programa se chama Top Talent Pass Scheme (Programa de Passe para Grandes Talentos, o TTPS). Ele entrega um visto de dois anos a quem cumpre um de dois critérios objetivos: renda alta no ano anterior ou diploma de uma universidade da lista das 100 melhores do mundo.

Com o visto na mão, o estrangeiro chega à cidade sem emprego, procura vaga com calma, abre empresa se quiser e leva a família. Ninguém pergunta, na entrada do aeroporto, para quem ele vai trabalhar nem quanto vai ganhar no primeiro mês.

Os três blocos seguintes trazem os caminhos do programa e o que cada um pede, uma engenheira de dados brasileira na procura de vaga em Hong Kong e a ordem dos papéis, do pedido online à renovação.

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I  A REGRA

Renda ou diploma, sem oferta

O Top Talent Pass Scheme abriu para pedidos em 28/12/2022, administrado pelo Departamento de Imigração de Hong Kong. Ele faz parte do pacote de atração de profissionais anunciado no Policy Address (o discurso anual de governo) do chefe do Executivo, John Lee, em 2022.

No mesmo discurso, John Lee fixou uma meta: trazer pelo menos 35 mil talentos por ano entre 2023 e 2025, somando todos os programas de imigração da cidade.

“Applicants are not required to have secured an offer of employment in Hong Kong upon application.”

(Departamento de Imigração de Hong Kong, Guidebook for Top Talent Pass Scheme, 2022)

A frase do guia oficial diz, em português, que o candidato não precisa ter uma oferta de emprego em Hong Kong no momento do pedido. Nos outros programas da cidade, a oferta assinada é a primeira peça da pasta.

O Top Talent Pass troca a oferta de emprego por um teste objetivo: salário comprovado ou diploma de universidade listada.

CATEGORIA A

A primeira categoria vale para quem teve renda anual de pelo menos 2,5 milhões de dólares de Hong Kong no ano anterior ao pedido, cerca de R$ 1,7 milhão. A renda conta salário, bônus e lucro de empresa própria, comprovados por declaração de imposto ou carta do empregador.

Essa categoria não pede diploma nem tempo mínimo de experiência. O número da renda basta.

CATEGORIA B

A segunda categoria vale para quem tem diploma de bacharelado de uma universidade da lista oficial e pelo menos três anos de experiência de trabalho nos cinco anos anteriores ao pedido.

A lista junta as instituições que aparecem entre as 100 primeiras de quatro rankings internacionais: o QS World University Rankings, o Times Higher Education, o US News and World Report e o Academic Ranking of World Universities, de Xangai. O governo de Hong Kong revisa a relação todo ano.

CATEGORIA C

A terceira categoria cobre o recém-formado das mesmas universidades, com diploma obtido nos cinco anos anteriores e menos de três anos de experiência. No lançamento, ela tinha cota de 10 mil vistos por ano; as categorias A e B não tinham teto.

O visto da categoria C dura dois anos, como os outros. Na renovação, as três categorias seguem a mesma regra: o titular mostra trabalho ou empresa aberta na cidade.

 
 

II  A VAGA

Juliana procura vaga em Central

Considere Juliana Prado Ferreira, nome dado aqui a uma engenheira de dados hipotética de 31 anos, nascida em Campinas (SP), com bacharelado em ciência da computação pela Universidade de Toronto, no Canadá, e seis anos de trabalho numa fintech de São Paulo.

A Universidade de Toronto aparece entre as 100 primeiras dos quatro rankings da lista. Com o diploma e mais de três anos de experiência, Juliana cabe na categoria B do Top Talent Pass.

Ela não tem oferta de emprego em Hong Kong. Também não fala cantonês, e o inglês dela, usado todo dia com clientes de fora, basta para as vagas de tecnologia nos bancos de Central.

Juliana pede o visto antes de ter qualquer entrevista marcada: a procura começa depois que ela desembarca.

OS PRIMEIROS MESES

Juliana chega com o visto de dois anos aprovado e o registro de entrada feito no aeroporto. Nos primeiros dias, ela tira a HKID (a carteira de identidade de Hong Kong), obrigatória para quem fica mais de 180 dias, e abre conta num banco local.

Ela aluga um quarto em Sai Ying Pun, bairro a duas estações de metrô de Central, e passa a mandar currículos pelo LinkedIn e por agências de recrutamento de tecnologia, as headhunters (caçadoras de talentos) que atendem bancos e seguradoras.

O EMPREGO

Depois de algumas semanas de entrevistas, Juliana recebe uma oferta de um banco de investimento para uma vaga de engenharia de dados. O contrato não exige nenhum pedido novo à imigração: o Top Talent Pass já permite trabalhar para qualquer empregador da cidade.

Se ela trocar de banco, também não precisa avisar o Departamento de Imigração nem tirar outro visto. O vínculo de Juliana é com a cidade, nunca com uma empresa só.

A FAMÍLIA

O marido de Juliana, Thiago, entra com visto de dependente, válido pelo mesmo prazo do dela. Em Hong Kong, o dependente de quem tem visto de talento pode trabalhar sem pedir autorização separada.

Os filhos menores de 18 anos também entram como dependentes e podem estudar nas escolas públicas locais ou nas internacionais da cidade, que ensinam em inglês.

OS IMPOSTOS

Juliana paga imposto de renda em Hong Kong só sobre o que ganha lá. O ano fiscal da cidade vai de abril a março, e a declaração chega pelo correio para cada contribuinte registrado.

No Brasil, ela entrega a Declaração de Saída Definitiva do País à Receita Federal e deixa de declarar como residente fiscal no país. Sem essa declaração, a Receita continua tratando Juliana como contribuinte brasileira.

 

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III  A ROTA

Do formulário à renovação

O pedido do Top Talent Pass é feito pela internet e anda em sete passos, todos sem empregador envolvido.

1. O candidato confere se a universidade do diploma está na lista oficial do ano, publicada no site do Departamento de Imigração.

2. Junta o passaporte, o diploma, o histórico escolar e, na categoria B, as cartas dos empregadores com as datas de cada vínculo.

3. Na categoria A, junta a declaração de imposto ou a carta do empregador com a renda do ano anterior.

4. Preenche o formulário ID 1009 (o pedido de entrada como talento) pelo serviço eletrônico do Departamento de Imigração.

5. Paga a taxa do pedido e acompanha o andamento pelo mesmo portal.

6. Recebe a aprovação e paga a emissão do e-Visa (o visto eletrônico), impresso em papel para o embarque.

7. Entra em Hong Kong e, se for ficar mais de 180 dias, agenda a HKID em até 30 dias.

O Departamento de Imigração informa um prazo de cerca de quatro semanas para analisar o pedido completo. Pasta incompleta volta com pedido de documento e atrasa a resposta.

O brasileiro entra em Hong Kong como turista, sem visto, por até 90 dias. O candidato pode fazer a viagem de reconhecimento antes e protocolar o pedido do Top Talent Pass depois, já com contatos na cidade.

A RENOVAÇÃO

Ao completar os dois anos, o titular pede a extensão. Nessa hora ele prova que está empregado em Hong Kong ou que abriu empresa ativa na cidade, com contrato, contracheques ou registro comercial.

A extensão sai por três anos, e depois por mais três, no padrão 2 + 3 + 3. Com sete anos de residência contínua, o estrangeiro pode pedir o status de residente permanente de Hong Kong, que dispensa visto de trabalho.

Quem termina os dois anos sem emprego e sem empresa não renova. O visto vence, e o estrangeiro sai da cidade ou entra noutro programa.

“Qual diploma ou salário da sua carreira abriria hoje a porta de Hong Kong?”

A pasta de Juliana sai por cerca de R$ 7.400, com as duas taxas de HK$ 230 do pedido e do e-Visa (perto de R$ 320 juntas), a passagem só de ida de São Paulo a Hong Kong com escala e o primeiro mês de quarto em Sai Ying Pun (cotação de 31/10/2026).

 
 
Quiz da edição

Qual categoria do Top Talent Pass Scheme nasceu com cota de 10 mil vistos por ano, segundo a edição?

ACategoria A, para quem comprova renda anual alta
BCategoria B, para quem tem diploma e três anos de experiência
CCategoria C, para recém-formados das universidades listadas
DNenhuma categoria tinha limite de vistos por ano

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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