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A tabela de 60 pontos que libera o trabalho na China
Diploma, salário, idade, experiência e mandarim viram nota, e só a classe B com 60 pontos ou mais ganha a permissão.
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Xangai vista da Shanghai Tower, a 632 metros
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A 632 metros de altura, no mirante da Shanghai Tower, em Lujiazui, na margem leste do rio Huangpu, quem olha para o oeste vê o Bund, a fileira de prédios de pedra erguidos por bancos estrangeiros há mais de cem anos.
Os escritórios dos andares de baixo da torre contratam estrangeiros todo ano. Cada um deles entrou no país com um documento que existe desde 2017: a Permissão de Trabalho para Estrangeiros na China, emitida pelo governo chinês depois de uma conta de pontos.
Até 2016, a China tinha dois papéis separados. Um valia para especialista estrangeiro, outro para empregado comum, e cada província lia as regras do seu jeito. O estrangeiro podia ser aceito em Xangai e recusado em Pequim com o mesmo currículo.
Em abril de 2017, o sistema foi unificado no país inteiro. A Administração Estatal de Assuntos de Especialistas Estrangeiros, órgão hoje ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, passou a emitir uma permissão só, com um cartão e um número que acompanham o estrangeiro enquanto ele trabalhar na China.
A mudança mais visível foi a divisão em três classes. A classe A reúne o talento de alto nível, a classe B reúne o profissional qualificado e a classe C reúne o trabalho temporário, sazonal ou de baixa qualificação, com cota controlada pelo governo.
Entre as três, a classe B é a porta de quase todo brasileiro. É nela que cabe o engenheiro, o analista, o professor de inglês com diploma e o gerente de uma empresa estrangeira instalada em Xangai ou Shenzhen.
A classe B pede, no piso, diploma de graduação e dois anos de experiência na área da vaga. O candidato que não cumpre esse piso tem uma saída: somar 60 pontos numa tabela oficial que dá nota a cada parte do currículo.
O que a tabela pontua, quanto vale cada item e onde o brasileiro perde nota aparecem logo abaixo, na regra.
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I A REGRA
Cinco notas que somam 60
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A Permissão de Trabalho para Estrangeiros na China é o documento que autoriza um estrangeiro a receber salário de empresa chinesa. Ela é pedida pelo empregador, nunca pelo candidato, e sem ela o visto de trabalho não sai.
A tabela de pontos avalia cinco itens principais. Entram o salário anual oferecido pela empresa, o nível do diploma, os anos de experiência, a idade e o domínio de mandarim, medido pelo HSK (o exame oficial de proficiência em chinês).
O salário pesa mais que os outros itens. Quanto maior o valor anual no contrato, mais pontos, e a escala é calculada sobre o salário médio da cidade onde a empresa está, então o mesmo contrato vale nota diferente em Pequim e em Chengdu.
A idade tem faixa fixa. Quem tem entre 26 e 45 anos recebe a nota máxima do item, e a pontuação cai para quem está abaixo ou acima dessa faixa, até zerar depois dos 60.
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Na China, o currículo vira um boletim, e a empresa só contrata quem passa de ano.
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O diploma sobe de nota por degrau. Graduação vale menos que mestrado, e mestrado vale menos que doutorado; formado em universidade listada entre as melhores do mundo em rankings aceitos pelo governo ganha pontos extras.
O mandarim é o item em que o brasileiro costuma zerar. O HSK tem seis níveis na versão antiga, e cada nível aprovado soma nota, até o teto do item.
A prova do HSK é aplicada no Brasil. Institutos Confúcio ligados a universidades brasileiras, como os da Unesp e da PUC-Rio, recebem o exame algumas vezes por ano, e o certificado sai com validade de dois anos para fins de pontuação.
Há também bônus pequenos. Trabalhar para empresa de grande porte reconhecida, ter passado anos na China antes e ir para regiões do oeste do país, onde o governo quer atrair gente, somam pontos que podem fechar a conta.
O escritor Lu Xun, um dos fundadores da literatura chinesa moderna, terminou um conto com uma frase sobre caminhos que ninguém abriu antes.
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“Na verdade, não existe caminho na terra; quando muita gente passa por ali, o caminho se faz.”
Lu Xun, "Terra Natal", 1921
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O QUE AS CLASSES SEPARAM
A classe A não depende dos 60 pontos. Ela vale para quem soma 85 ou mais, e também para quem entra por lista oficial de talento, como cientista premiado, executivo de alto escalão ou investidor, sem limite de idade nem cota.
A classe C não tem tabela. Ela cobre trabalho doméstico em casa de diplomata, estágio, temporada e vaga sem exigência de diploma, e o número de permissões depende da cota anual definida pelo governo.
Quem cai na classe B pelo caminho mais comum, com diploma e dois anos de experiência, não precisa provar os 60 pontos. A tabela vira rota para o candidato que não tem esses dois requisitos e compensa com salário alto ou mandarim.
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II A VAGA
O professor e o engenheiro
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A classe B abriga duas figuras que mais aparecem nos anúncios para brasileiros. Uma é o professor de inglês em escola de idiomas ou internacional, e a outra é o engenheiro ou técnico levado por multinacional para fábrica chinesa.
O professor de idioma tem regra própria. A China exige que ele seja falante nativo do idioma ensinado, com passaporte de país que tem o inglês como língua oficial, ou que prove formação em ensino e experiência equivalente.
O brasileiro fluente em inglês esbarra nessa trava. Escolas que querem contratar precisam provar que o candidato tem diploma na área de letras ou de educação e certificado de ensino de idiomas, como o TEFL (curso para ensinar inglês a estrangeiros).
O professor de português encontra menos barreira. Universidades chinesas mantêm cursos de língua portuguesa para formar tradutores que trabalham com Brasil, Angola e Moçambique, e o falante nativo cabe na regra do idioma.
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Na vaga chinesa, o idioma que o brasileiro fala de berço vale mais que o inglês que ele estudou.
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ONDE AS VAGAS ESTÃO
As multinacionais com fábrica na China levam técnicos para a linha de produção. Mineração, agronegócio e montadoras, setores em que empresas brasileiras e chinesas fazem negócio, abrem vaga para quem conhece o produto e o cliente do Brasil.
As empresas chinesas que vendem para o Brasil também contratam. Fabricantes de carros elétricos, de máquinas e de eletrônicos com sede em Shenzhen, Guangzhou e Hangzhou buscam quem fale português para atender distribuidores e montar operação no mercado brasileiro.
A zona econômica de Hainan, a ilha tropical do sul, recebeu regras mais leves para contratar estrangeiros. O governo chinês criou ali um porto de livre comércio e passou a aceitar alguns pedidos com menos documentos.
O salário muda a classe. Um contrato alto em Xangai pode levar o candidato da B para a A, porque o item de salário soma pontos o suficiente para cruzar os 85, mesmo sem mandarim.
A permissão fica presa ao empregador. Trocar de empresa exige cancelar a permissão antiga e pedir outra, com a nova empresa refazendo o processo, e trabalhar sem permissão rende multa, detenção e deportação.
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