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ED 002

As taxas do visto que a empresa não pode te cobrar

A lei separa a fatura do patrocínio em duas pilhas: a do empregador, intransferível, e a que sobra pra você e pros seus dependentes.

Uma carta de oferta em inglês sobre a mesa, ao lado de um passaporte fechado e de recibos de taxa consular.

A fatura do patrocínio aberta sobre a mesa

 

A proposta chega por email, em inglês, com cargo, salário anual e uma linha curta no fim: visa sponsorship available. A linha parece encerrar a preocupação com dinheiro. Ela quase não fala sobre quem paga o quê.

A frase significa apenas que a empresa tem licença pra contratar estrangeiro, ou disposição pra pedir uma. Não é promessa de reembolso, não é pacote de mudança e não cobre passaporte, tradução juramentada nem passagem.

Patrocinar um profissional estrangeiro tem preço de tabela, publicado no site do órgão de imigração de cada país.

No Reino Unido, uma contratação de três anos cobra da empresa a licença de patrocínio, o certificado do trabalhador e a taxa anual de qualificação da mão de obra. Somadas, as três passam de £ 5 mil antes de você comprar a passagem.

Essa pilha não pertence a você, e em vários países repassá-la ao contratado é infração. Existe lugar onde o repasse custa a licença da empresa e lugar onde a lei trata a cobrança como crime, com pena de prisão escrita no código migratório.

A outra pilha existe do mesmo jeito e tem o seu nome. Taxa de visto, contribuição de saúde paga de uma vez, biometria, exame médico, tradução juramentada e a multiplicação por cabeça quando cônjuge e filhos entram no mesmo pedido.

O que quase nunca acontece é a pergunta chegar antes da assinatura. O candidato negocia salário, bônus e data de início, e deixa a fatura do patrocínio pro RH resolver pelo manual da casa, que costuma cobrir o mínimo legal e parar ali.

A divisão também tem hora certa de ser discutida. Depois da assinatura, o RH tem pouco motivo pra reabrir a planilha, e a taxa que ficou sem dono no papel cai em quem já está com a mudança marcada.

O mínimo legal, porém, está escrito, com nome de taxa e valor. Saber qual linha a empresa é obrigada a pagar muda o tom da conversa: você deixa de pedir favor e passa a conferir uma lista.

A regra de hoje começa pelo que a lei prende no empregador em quatro países que recebem brasileiro qualificado todo mês, com o nome de cada taxa e o que acontece com quem tenta empurrar a conta pro contratado.

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I  A REGRA

Quatro países, a mesma proibição

Licença, certificado e taxa de qualificação pertencem a quem contrata, e a regra escrita diz o mesmo em quatro idiomas. Veja o que Canadá, Austrália, Estados Unidos e Reino Unido fazem com a empresa que tenta transferir essa pilha.

No Canadá, contratar estrangeiro pela via comum exige uma avaliação de impacto no mercado de trabalho, a LMIA, que custa CAD 1.000 por posição. A regra do programa é explícita: recuperar esse valor do trabalhador viola as condições impostas ao empregador.

A mesma proibição alcança a taxa de conformidade de CAD 230, cobrada nas contratações dispensadas de LMIA. Empregador flagrado numa inspeção paga multa administrativa, entra na lista pública de descumprimento e pode ficar anos sem autorização pra contratar de fora.

Na Austrália, a proibição está no código. Os artigos 245AA a 245AR da Lei de Migração de 1958 transformaram em crime pedir, receber ou oferecer benefício em troca de patrocínio, com pena de prisão prevista e multa civil no mesmo pacote.

As obrigações de patrocinador completam o cerco. A taxa de nomeação e a contribuição pro fundo de qualificação, entre AUD 1.200 e AUD 1.800 por ano de visto, saem do caixa da empresa e não podem ser recuperadas do trabalhador nem da família dele.

Nenhum desses países pergunta o que você combinou com o RH. A fatura do patrocínio já tem dono escrito no regulamento.

Nos Estados Unidos, o visto H-1B tem uma taxa de treinamento de US$ 750 pra empresa com até 25 empregados em tempo integral e US$ 1.500 pras maiores. A norma do Departamento do Trabalho proíbe que o trabalhador pague essa taxa, mesmo quando ele se oferece pra fechar a vaga mais rápido.

A taxa antifraude de US$ 500 segue a mesma lógica. E qualquer desconto que derrube o salário abaixo do piso declarado no pedido é irregular por conta própria, independente do que as duas partes combinaram.

Na fila do green card por trabalho, a exigência aperta mais. O regulamento federal 20 CFR 656.12(b) manda o empregador pagar todo o custo da certificação de trabalho, inclusive honorários de advogado e os anúncios de recrutamento obrigatórios.

No Reino Unido, o guia de patrocinadores do Home Office lista o que não pode ser repassado: a licença de patrocínio, o certificado do trabalhador e a taxa anual de qualificação da mão de obra. Repasse comprovado é motivo de revogação da licença, o que derruba o visto de todos os patrocinados da casa.

A Irlanda fecha por outro caminho. A lei de permissões de trabalho proíbe descontar do salário qualquer custo de recrutamento e proíbe reter documento pessoal do trabalhador, passaporte incluído.

O eixo comum é fácil de guardar. A taxa que existe porque a empresa quer contratar de fora pertence à empresa. A taxa que existe porque uma pessoa quer entrar e morar no país pertence a essa pessoa.

 
 

II  A VAGA

As taxas que caem no seu cartão

A sua pilha começa na taxa do visto e termina numa lista que ninguém lê em voz alta: contribuição de saúde paga de uma vez, biometria, exame médico, tradução juramentada e a multiplicação por cabeça quando cônjuge e filhos entram no mesmo pedido.

O pedido de visto é seu, e a taxa dele quase sempre também. No Reino Unido, na Austrália e no Canadá a regra coloca o pagamento no requerente, e a empresa que reembolsa está oferecendo um benefício, não cumprindo obrigação.

O item mais pesado do Reino Unido nem é a taxa de visto. É a contribuição pro sistema público de saúde, £ 1.035 por ano por adulto e £ 776 por ano por menor de 18, cobrada de uma vez pelo período inteiro do visto.

A conta de uma família de três num visto de cinco anos fica assim: £ 10.350 pelos dois adultos, £ 3.880 pela criança, £ 14.230 apenas de saúde, antes da taxa de visto de cada um.

Na Austrália, cada integrante paga a própria taxa do visto de trabalho patrocinado, com valor cheio pro adulto e reduzido pro menor de 18. O seguro-saúde privado precisa ficar ativo enquanto o visto durar, e a apólice também sai do seu bolso.

No Canadá a entrada é mais barata e mais fragmentada. A permissão de trabalho custa CAD 155, a biometria CAD 85 por pessoa com teto por família, e ainda entram exame médico e a permissão de trabalho aberta do cônjuge quando a rota permite.

A empresa reembolsa a sua pilha quando quer, e a lei só a obriga na pilha do patrocínio.

Fora da tabela oficial existe uma lista que aparece quando o processo já começou. Tradução juramentada de diploma e certidões, apostila de Haia, exame médico, teste de inglês, avaliação de diploma por agência estrangeira e o custo de mandar dinheiro pra fora.

Cada item tem preço pequeno e prazo longo. Juntos, costumam somar mais que a taxa do visto, e chegam sempre no mês em que você também precisa comprar passagem e pagar depósito de aluguel.

Dependente nem sempre é opção. Desde março de 2024, quem entra no Reino Unido pela rota de cuidador não pode levar cônjuge nem filhos, e outras rotas passaram a exigir salário maior de quem chega acompanhado.

Onde levar é permitido, o custo multiplica por cabeça e não por família. Vale conferir também o direito de trabalho do acompanhante, porque em algumas rotas ele entra livre no mercado e em outras fica preso a um novo patrocínio.

Um detalhe fiscal fecha a lista. No Reino Unido, quando a empresa reembolsa a taxa de visto ou a contribuição de saúde, o valor costuma entrar como benefício tributável no seu nome, e o imposto sobra pra você se ninguém combinou o contrário por escrito.

 
 

III  A ROTA

Quatro perguntas por escrito antes de assinar

1. Peça a fatura do patrocínio linha a linha: nome da taxa, valor, moeda, quem paga e quando. Pacote de mudança sem lista não é resposta, e a lista mostra na hora o que a empresa já sabe que é obrigação dela.

2. Separe adiantamento de reembolso. Defina quem passa o cartão na hora, em quantos dias o dinheiro volta, por qual câmbio e se o valor entra no contracheque com imposto em cima.

3. Leia a cláusula de devolução antes de assinar. No Reino Unido, taxa de visto e contribuição de saúde só podem ser cobradas de volta se você sair cedo com acordo escrito e assinado antes, e a taxa anual de qualificação nunca entra nessa cobrança.

4. Coloque os dependentes na mesma frase do contrato: visto, contribuição de saúde, passagem e mudança do cônjuge e dos filhos. Custo de família que fica implícito costuma virar seu no primeiro boleto.

Peça junto a data de cada pagamento. Taxa de visto e contribuição de saúde saem no envio do pedido, meses antes do primeiro salário lá fora, e quem descobre a ordem tarde demais acaba financiando o próprio patrocínio no cartão de crédito.

Duas perguntas a mais valem o email. O que acontece se o pedido for indeferido, e quem paga a segunda tentativa. E o que acontece se a empresa encerrar o contrato antes do prazo, com você já morando lá.

As duas respostas têm base legal em algum lugar. Nos Estados Unidos, o empregador que dispensa o titular de H-1B antes do fim do período tem que pagar o transporte de volta ao país de origem, regra do 8 CFR 214.2(h)(4)(iii)(E).

No Reino Unido, quando o patrocínio cai, a permanência é reduzida a 60 dias pra você encontrar outro patrocinador ou sair do país. Saber o número antes muda o tamanho da reserva de emergência que você leva na mala.

No Canadá, a permissão fechada amarra você a um empregador específico. Peça por escrito o compromisso de apoiar uma nova avaliação de mercado se o cargo, a cidade ou o salário mudarem depois da chegada.

Guarde tudo no mesmo lugar. Email que combina taxa por taxa já vale como prova de acordo em vários países, e a versão final precisa aparecer no contrato ou num anexo assinado, nunca apenas na conversa com o recrutador.

A divisão da fatura do patrocínio é decidida antes da assinatura, e a taxa que fica sem dono no papel costuma achar o seu bolso.

"Quais taxas do seu patrocínio ainda não têm nome nem dono no contrato?"

 
 
Quiz da edição

Nos Estados Unidos, qual valor da taxa de treinamento do H-1B a empresa com até 25 empregados em tempo integral é proibida de repassar ao trabalhador?

AUS$ 500
BUS$ 750
CUS$ 1.000
DUS$ 1.500

Resultado da última edição: 0% acertaram.

 
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