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Desde 2020, o patrão no Catar não veta a troca de emprego

A reforma da kafala trocou a carta do patrocinador por aviso prévio e criou o piso de 1.000 riais, com cama e comida pagas pela empresa.

Torres de Lusail, ao norte de Doha, no Catar.

Lusail, 23 km ao norte de Doha

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Doha fica a 25 graus de latitude norte, na ponta de uma península de 11.500 quilômetros quadrados cravada no Golfo Pérsico, e em julho o termômetro da cidade passa dos 45 graus à sombra. Dos andaimes de Lusail, 23 quilômetros ao norte do centro, o operário enxerga o estádio onde a Argentina venceu a final da Copa do Mundo de 2022.

Quase toda a mão de obra desse horizonte veio de fora. Os cidadãos catarianos são minoria no próprio país, e os canteiros, hotéis e casas de família funcionam com trabalhadores contratados na Índia, no Nepal, em Bangladesh, nas Filipinas, no Quênia e, em número menor, no Brasil.

Durante décadas, a vida desse estrangeiro dependeu da kafala (patrocínio, em árabe). O kafil, o patrocinador, era a empresa que trazia o trabalhador ao país e respondia por ele perante o governo.

Na prática, o patrocinador segurava as duas portas. Para trocar de emprego, o trabalhador precisava de uma carta de não objeção (NOC, na sigla em inglês) assinada pelo próprio patrão. Para deixar o país, até janeiro de 2020, parte dos estrangeiros dependia de uma licença de saída também autorizada por ele.

Quem pedia demissão sem a carta podia ser registrado como fugitivo, perder a residência e ser deportado. O emprego virava uma porta trancada por fora, com a chave no bolso de quem pagava o salário.

A pressão cresceu quando o país ganhou o direito de sediar a Copa e os canteiros de obra se multiplicaram. Em 2018, a Organização Internacional do Trabalho (OIT, a agência da ONU para o trabalho) abriu escritório em Doha, dentro de um acordo de cooperação técnica com o governo catariano.

Em agosto de 2020, o governo anunciou o pacote que mexeu nas duas pontas do contrato: a troca de emprego sem carta do patrão e um salário mínimo único, válido para todas as nacionalidades e todos os setores.

Abaixo estão as leis que derrubaram a carta, um eletricista hipotético fazendo a troca e o caminho de quem quer trabalhar no Catar hoje.

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A reforma está em três textos de 2020. O Decreto-Lei número 18 alterou a Lei do Trabalho de 2004; o Decreto-Lei número 19 alterou a lei de entrada, saída e residência de estrangeiros, de 2015; e a Lei número 17 criou o salário mínimo nacional.

Com as mudanças, o trabalhador estrangeiro pode mudar de empregador durante o contrato sem carta de não objeção. Ele avisa o patrão atual e registra o pedido na plataforma eletrônica do Ministério do Trabalho catariano.

O aviso prévio tem prazo fixo. Quem trabalhou até dois anos na empresa dá um mês de aviso; quem passou de dois anos dá dois meses. Durante o aviso, o contrato segue valendo, o trabalhador continua no posto e o salário continua caindo na conta.

O período de experiência tem regra própria. Se a troca acontece durante a experiência, o novo empregador pode ter de reembolsar ao antigo parte do custo de recrutamento, num teto de dois meses de salário básico do trabalhador.

I  A REGRA

O fim da carta de não objeção

Desde 2020, a troca de emprego no Catar depende de aviso prévio, e a assinatura do patrão saiu da conta.

A ideia de que o trabalho pertence a quem trabalha é antiga, e um economista escocês a escreveu no século XVIII.

“A propriedade que todo homem tem no próprio trabalho, sendo a base original de toda outra propriedade, é a mais sagrada e inviolável.”

Adam Smith, A Riqueza das Nações, 1776

No Catar, a frase de Smith levou mais de dois séculos para virar procedimento: um formulário eletrônico, um aviso de um ou dois meses e um contrato novo registrado no ministério.

O SALÁRIO MÍNIMO

O piso entrou em vigor em 20 de março de 2021. São 1.000 riais catarianos por mês de salário básico, para qualquer nacionalidade e qualquer setor, inclusive o trabalho doméstico.

A lei soma duas obrigações ao básico. Se a empresa não oferece alojamento adequado, paga mais 500 riais por mês; se não oferece comida, paga mais 300 riais. Quem mora e come por conta da empresa recebe os 1.000 riais cheios, sem desconto pela cama ou pela refeição.

O rial catariano é atrelado ao dólar a uma taxa fixa de 3,64 riais por dólar. O piso básico equivale a cerca de US$ 275 por mês, e o pacote completo, com alojamento e comida pagos em dinheiro, a cerca de US$ 495.

O QUE A REFORMA DEIXOU DE PÉ

O documento de residência, o QID (Qatar ID, a carteira de identidade do estrangeiro), continua vinculado a um empregador. Na troca, o novo patrão assume o documento, e o trabalhador nunca fica sem responsável legal no país.

A retenção do passaporte pelo empregador já era proibida pela Lei número 4 de 2009. A OIT registrou, nos relatórios de progresso do escritório de Doha publicados depois de 2020, queixas de empresas que seguiam retendo documentos ou abrindo denúncia de fuga para punir quem pedia a troca.

 
 

Considere Rafael Duarte Moreira, nome dado aqui a um eletricista hipotético de 31 anos, de Recife, contratado por uma construtora de Doha para a manutenção elétrica de prédios residenciais em Lusail.

O contrato de Rafael é de dois anos. Paga 2.500 riais de salário básico, com cama em alojamento compartilhado, refeitório da empresa e ônibus fretado até a obra, numa jornada de 48 horas por semana.

Com 14 meses de casa, Rafael recebe uma proposta de uma empresa de manutenção predial em West Bay, o bairro das torres de escritório. O salário básico sobe para 4.200 riais, sem alojamento, com auxílio-moradia de 1.500 riais por mês.

Antes de 2020, a proposta morreria na mesa. A construtora poderia negar a carta de não objeção, e Rafael teria de escolher entre ficar ou voltar ao Brasil sem emprego.

Agora, Rafael entra na plataforma do Ministério do Trabalho com o QID, preenche o pedido de troca e anexa a oferta assinada pela empresa nova. O sistema notifica a construtora, e o aviso prévio começa a contar no dia do registro.

II  A VAGA

O eletricista de Recife em Lusail

O trabalhador registra a troca no ministério, e o patrão atual recebe o aviso; a aprovação dele não entra no processo.

Como tem menos de dois anos de casa, o aviso de Rafael é de um mês. Ele já passou do período de experiência, então a empresa nova não deve nenhum reembolso de recrutamento à construtora.

O MÊS DE AVISO

Durante as quatro semanas, Rafael segue trabalhando em Lusail. O salário cai pelo WPS (Wage Protection System, o sistema que registra cada pagamento por transferência bancária), e qualquer atraso fica visível para o ministério.

A empresa nova registra o contrato, e o ministério transfere o QID para o nome dela. Rafael desocupa a cama do alojamento, aluga um quarto em Al Sadd com o auxílio-moradia e começa no emprego novo no dia seguinte ao fim do aviso.

Na saída, a construtora paga a gratificação de fim de serviço, prevista na Lei do Trabalho: pelo menos três semanas de salário básico por ano trabalhado. Com 14 meses e 2.500 riais de básico, a conta de Rafael fica perto de 2.000 riais.

Se a construtora abrisse uma denúncia de abandono depois do pedido registrado, Rafael teria o protocolo da plataforma como prova de que avisou dentro do prazo. A denúncia se contesta no próprio ministério, com o protocolo e os comprovantes do WPS.

 

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A sequência abaixo serve ao brasileiro que quer trabalhar no Catar com contrato formal.

• Procurar vaga direto em empresa catariana ou por agência de recrutamento licenciada pelo Ministério do Trabalho do Catar.

• Exigir o contrato por escrito, com salário básico, alojamento, comida, jornada e aviso prévio, antes de embarcar.

• Recusar qualquer cobrança de taxa de recrutamento: a Lei do Trabalho do Catar proíbe que a agência cobre essa taxa do trabalhador.

• Esperar a autorização de entrada para trabalho, pedida pelo empregador ao Ministério do Interior e enviada por via eletrônica.

• Ao chegar a Doha, fazer o exame médico e a coleta de digitais nas datas agendadas pela empresa.

• Receber o QID, o documento que permite abrir conta em banco, alugar imóvel e contratar linha de celular.

• Guardar o passaporte consigo e manter cópia digital do contrato, do QID e dos comprovantes de salário.

• Para trocar de emprego, registrar o pedido na plataforma do Ministério do Trabalho e cumprir o aviso de um ou dois meses.

Quem tem salário atrasado ou contrato descumprido recorre aos Comitês de Resolução de Disputas Trabalhistas, criados em 2018 dentro do Ministério do Trabalho para julgar queixas sem passar pela justiça comum.

O brasileiro também conta com o setor consular da Embaixada do Brasil em Doha, que atende emissão de documentos, registro de nascimento e orientação em caso de detenção ou conflito com o empregador.

A reforma não mexeu na jornada máxima nem no calor. A lei catariana proíbe trabalho ao ar livre entre 10h e 15h30 de junho a meados de setembro, e o expediente de obra passa a começar de madrugada.

O piso de 1.000 riais vale para a função mais simples do mercado. Vagas técnicas, como eletricista, soldador ou enfermeiro, costumam pagar básico bem acima dele, e a negociação acontece antes da assinatura, no país de origem.

“Seu contrato diz por escrito quem paga a cama e a comida?”

O pacote mínimo fecha em cerca de R$ 2.670 por mês para quem mora e come por conta própria: 1.000 riais de básico, 500 de alojamento e 300 de comida, a 3,64 riais por dólar e R$ 5,40 por dólar (cotação de 18/10/2026).

III  A ROTA

Da oferta assinada ao QID novo

★ RARO

🔒

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Quanto tempo de aviso prévio Rafael dá pra construtora, com 14 meses de casa?

ADois meses, regra padrão acima de dois anos
BUm mês, por ter menos de dois anos de casa
CNenhum, carta de não objeção vale como dispensa
DTrês meses, exigido pelo QID

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