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ED 028
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O aprendizado alemão que paga salário durante o curso

A Ausbildung junta empresa e escola profissional, deposita de 1.000 a 1.200 euros por mês no aprendiz e termina em diploma alemão reconhecido.

Cartaz de vaga de aprendiz na vitrine de uma padaria em Schwäbisch Gmünd.

Vaga de aprendiz na vitrine, em Schwäbisch Gmünd

 

Schwäbisch Gmünd fica a 320 metros de altitude, 50 quilômetros a leste de Stuttgart, e tem 61 mil habitantes. Na vitrine da padaria da rua principal, um cartaz de papel A4 pede aprendiz para começar em setembro, jornada de 39 horas, quarto no prédio de cima. Na mesma calçada, a oficina mecânica tem cartaz parecido no vidro e a casa de repouso pendurou o dela no portão.

Esses cartazes procuram Azubi, abreviação de Auszubildende, a palavra alemã para aprendiz contratado. O que eles oferecem se chama Ausbildung, a formação profissional dual, um curso de dois a três anos e meio em que o aluno passa três ou quatro dias por semana trabalhando na empresa e um ou dois na Berufsschule, a escola profissional pública da região. A empresa assina contrato, paga por mês e assume a parte prática da formação.

O visto que traz um brasileiro para ocupar essa vaga existe desde 2020 na lei alemã de imigração, no parágrafo que trata de formação profissional. Ele tem uma condição que inverte a ordem da maioria dos planos de mudança: o contrato de Ausbildung assinado com a empresa alemã precisa estar em mãos na hora de abrir o pedido no consulado. Sem contrato, o processo não começa.

O dinheiro que entra durante o curso vem da empresa, não de bolsa de estudo. A remuneração de formação, a Ausbildungsvergütung, tem piso definido em lei federal e sobe a cada ano do curso. Nos setores que mais contratam estrangeiro, enfermagem e cuidado a idosos à frente, o valor pago no primeiro ano fica entre 1.000 e 1.200 euros brutos por mês, e nos acordos coletivos da indústria costuma passar dessa faixa.

O alemão exigido depende da área. A maioria das empresas e dos consulados trabalha com o nível B1 do Quadro Europeu Comum de Referência, o patamar em que a pessoa sustenta conversa de trabalho e entende instrução escrita. Enfermagem e áreas de contato direto com paciente pedem B2, um degrau acima, porque a escola profissional dessas áreas dá aula em ritmo de nativo.

A ordem do processo, o que o contrato precisa trazer por escrito e o nível de alemão que cada área cobra abrem a primeira parte da edição de hoje.

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I  A REGRA

O contrato vem antes do visto

O visto de Ausbildung autoriza uma relação de trabalho com fins de formação, e quem sustenta o pedido é o contrato assinado entre o aprendiz e a empresa alemã, registrado na câmara profissional da região. A câmara é a IHK, a Industrie- und Handelskammer, câmara de indústria e comércio, ou a HWK, a Handwerkskammer, câmara de ofícios, dependendo da profissão escolhida.

O registro na câmara dá valor oficial ao contrato. Ela confere se a empresa está habilitada a formar aprendiz, se existe um profissional responsável pela instrução e se o plano de formação cobre o currículo nacional da profissão. Empresa sem habilitação pode oferecer emprego, nunca Ausbildung.

O contrato precisa trazer por escrito a profissão exata do currículo nacional, a data de início, a duração em anos, a jornada semanal, a remuneração de cada ano, o período de experiência e os dias de férias. O consulado lê cada campo, e campo em branco devolve o processo para correção antes da análise de mérito.

A aprovação do consulado não é automática depois do contrato. A autoridade de estrangeiros da cidade onde a empresa fica, a Ausländerbehörde, dá ou nega um parecer sobre o pedido, e o consulado decide com base nele. O prazo dessa consulta varia de duas semanas a três meses conforme a cidade, e ele corre fora do controle do candidato.

O ALEMÃO QUE CADA ÁREA COBRA

B1 é o nível mais pedido. Em mecânica, logística, hotelaria, panificação, eletrotécnica e boa parte da indústria, o certificado B1 do Goethe-Institut ou do exame telc cumpre a exigência da empresa e do consulado. Parte das empresas aceita A2 na entrevista, com a condição de o candidato chegar ao B1 até o primeiro dia de aula.

B2 vale para enfermagem, cuidado a idosos, farmácia e profissões de atendimento em consultório. O motivo está na Berufsschule dessas áreas: a aula cobre anatomia, farmacologia e protocolo de emergência, e a prova final é escrita no mesmo formato aplicado ao aluno alemão.

“A formação profissional dual acontece em dois lugares de aprendizado, a empresa e a escola profissional, e os dois respondem juntos pela qualificação final do aprendiz.”

Bundesinstitut für Berufsbildung, Datenreport zum Berufsbildungsbericht, 2025

A comprovação de sustento fecha a lista de documentos. Remuneração acima do mínimo de subsistência fixado pelo governo alemão para o ano se comprova com o próprio contrato. Abaixo dele, o candidato precisa de uma conta bloqueada, a Sperrkonto, com depósito que cobre a diferença dos doze primeiros meses, ou de declaração de patrocínio assinada por terceiro na Alemanha.

 
 

II  A VAGA

Quem paga o aprendiz, e quanto

O dinheiro do aprendiz sai do caixa da empresa que assinou o contrato, todo mês, com recibo de pagamento, desconto de imposto e contribuição para os quatro seguros sociais alemães: saúde, aposentadoria, desemprego e cuidados de longa duração. Pelo primeiro salário ele entra na seguridade, com carteira de segurado e cartão do plano de saúde público.

A lei federal de formação profissional fixa um piso nacional que sobe a cada ano do curso, e ele é o chão do mercado. Acordo coletivo de setor manda mais que o piso: metalurgia, indústria química e serviço público pagam bem acima do mínimo legal já no primeiro ano.

A faixa que interessa a quem vem do Brasil fica entre 1.000 e 1.200 euros brutos mensais no primeiro ano, o patamar de enfermagem, cuidado a idosos e boa parte da indústria. Do bruto saem cerca de 20 por cento em imposto e seguros, o que deixa algo entre 800 e 980 euros na conta. O valor contratado cresce em cada ano seguinte, e no terceiro ano costuma ficar um terço acima do primeiro.

O custo de vida come boa parte desse dinheiro em cidade grande. Quarto em apartamento compartilhado em Stuttgart, Munique ou Hamburgo raramente sai por menos de 500 euros com contas incluídas, e em cidade de 50 a 100 mil habitantes aparece por 300 a 380 euros. Empresa de cidade pequena costuma oferecer alojamento próprio com desconto em folha.

DIREITOS QUE VÊM COM O CONTRATO

O aprendiz tem férias pagas de 24 a 30 dias por ano, dispensa remunerada nos dias de escola profissional e direito ao pagamento integral em caso de atestado médico. A jornada passa de 40 horas semanais apenas em casos previstos no acordo do setor, e hora extra de aprendiz é paga ou compensada em banco de horas registrado.

A empresa não pode usar o aprendiz como mão de obra genérica. O plano de formação registrado na câmara lista as tarefas que fazem parte do aprendizado, e o aprendiz que passa meses varrendo o galpão sem aprender o ofício tem canal de reclamação na própria câmara, que fiscaliza e pode cassar a habilitação da empresa para formar.

A troca de empresa durante o curso acontece. O aprendiz rescinde o contrato no período de experiência sem justificativa ou, depois dele, com aviso e motivo, e assina com outra empresa da mesma profissão. O tempo cumprido conta, e a autorização de residência é atualizada na autoridade de estrangeiros com o novo contrato em mãos.

O curso tem duas provas da câmara profissional, uma intermediária e a final. A aprovação na prova final emite o certificado de conclusão da profissão, válido em toda a Alemanha e na União Europeia, e ele transforma o visto de formação em autorização de residência de trabalho.

 

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III  A ROTA

Da carta do Goethe ao consulado

A sequência abaixo cobre quem está no Brasil, tem ensino médio completo, escolheu uma profissão do currículo alemão e pretende entrar pelo visto de formação profissional.

1. Escolher a profissão pelo catálogo oficial das profissões reconhecidas, porque o contrato, o currículo da escola profissional e o nível de alemão exigido saem todos dessa escolha.

2. Chegar ao B1 com certificado em mãos, ou ao B2 nas áreas de saúde, pelo exame do Goethe-Institut ou pelo telc, os dois aceitos sem ressalva por empresa e consulado.

3. Montar a candidatura no formato alemão: carta de motivação de uma página, currículo tabular com foto, histórico escolar traduzido e certificado de alemão anexado.

4. Procurar vaga nos portais de aprendizado das câmaras profissionais e da agência federal de trabalho, filtrando por profissão e por região, e escrever para as empresas uma a uma.

5. Fazer a entrevista por vídeo, em alemão, e pedir o contrato de Ausbildung assinado e registrado na câmara, com todos os campos preenchidos.

6. Reunir os documentos pessoais com apostila da Convenção de Haia no cartório e tradução juramentada para o alemão.

7. Abrir a conta bloqueada apenas se a remuneração do contrato ficar abaixo do mínimo de subsistência do ano, e guardar o comprovante de depósito emitido pelo banco.

8. Agendar o pedido de visto no consulado alemão da jurisdição de residência, levar o contrato, o certificado de alemão e o comprovante de sustento, e aguardar o parecer da autoridade de estrangeiros.

O passo quatro consome o maior tempo do candidato brasileiro. Empresa de cidade pequena responde melhor que grande grupo industrial, e a resposta vem depois de 20 a 40 candidaturas. O calendário aperta: a maior parte das vagas começa em agosto ou setembro, e a seleção fecha entre janeiro e abril.

O passo oito muda a data de embarque. O consulado alemão no Brasil tem agenda própria para visto de formação, e a espera entre o agendamento e a entrega dos documentos passa de dois meses em São Paulo, somada às semanas do parecer da autoridade de estrangeiros. Contrato que começa em setembro pede pedido aberto até março.

O fim do curso abre uma porta que o visto inicial já prevê. Com o certificado da câmara profissional na mão, o ex-aprendiz troca o visto de formação por autorização de residência de trabalho na própria Alemanha, sem voltar ao Brasil, e quem ainda não tem emprego assinado recebe uma autorização de procura de até doze meses para encontrar vaga na profissão formada.

Com o euro a R$ 6,35, a candidatura fecha em torno de R$ 6.860 por pessoa: cerca de R$ 1.150 no exame B1 do Goethe-Institut, R$ 480 na taxa consular de 75 euros, R$ 950 em apostilamento e tradução juramentada, R$ 340 no passaporte e R$ 3.940 na passagem de ida São Paulo a Frankfurt em classe econômica. Fora dessa quantia ficam o curso de alemão até o B1 e o depósito da conta bloqueada, exigido só quando a remuneração do contrato fica abaixo do mínimo de subsistência (cotação de 12/09/2026).

"Qual profissão do catálogo alemão combina com o que você já sabe fazer?"

 
 
 

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Quiz da edição

Segundo a edição, qual a faixa de remuneração bruta mensal no primeiro ano de Ausbildung para quem vem do Brasil, em enfermagem, cuidado a idosos e boa parte da indústria?

A500 a 700 euros
B1.000 a 1.200 euros
C1.500 a 1.800 euros
D2.000 a 2.200 euros

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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