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O dia de 1920 que decide a cidadania polonesa do bisneto

A lei polonesa não limita gerações, mas exige que o imigrante fosse polonês em 31/01/1920 e não tenha se naturalizado depois.

Casas de tronco do Memorial da Imigração Polonesa, no Bosque do Papa, em Curitiba.

O Bosque do Papa, em Curitiba

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A 934 metros de altitude, no Centro Cívico de Curitiba, o Bosque do Papa guarda casas de tronco de pinheiro iguais às que os imigrantes poloneses ergueram no Paraná a partir de 1871. Dali se vê a mata de araucária que os colonos derrubavam para levantar as primeiras paredes, a mais de 10 mil quilômetros das aldeias de onde tinham saído.

Muitos desses colonos desembarcaram sem país. A Polônia tinha sumido do mapa em 1795, repartida entre a Rússia, a Prússia e a Áustria, e o passaporte que eles traziam era russo, alemão ou austríaco.

No porto de Paranaguá, o funcionário da imigração anotava a nacionalidade do documento, e por esse motivo muito bisavô polonês aparece nos registros paranaenses como russo ou austríaco. A grafia do sobrenome também mudava conforme o ouvido de quem escrevia.

O país voltou a existir em novembro de 1918, no fim da Primeira Guerra Mundial. Em 20 de janeiro de 1920, o novo parlamento aprovou a primeira lei de cidadania polonesa, que entrou em vigor em 31 de janeiro do mesmo ano.

Essa data virou o marco de todo pedido feito agora por um descendente. Quem quer provar que é polonês precisa mostrar que o antepassado já era cidadão em 31 de janeiro de 1920 e que nunca perdeu a cidadania depois.

A lei polonesa não corta a herança em nenhuma geração. Bisneto e trineto pedem pelo caminho do neto, porque a cidadania passa de pai ou mãe para filho no nascimento e segue descendo enquanto a corrente não tiver elo partido.

Em muitas famílias paranaenses, o elo se parte num ponto que ninguém procura: a certidão de naturalização brasileira que o bisavô assinou para comprar terra, votar ou conseguir emprego público.

Quem contava como polonês em 1920, o que quebra a corrente e por que o Brasil entra na conta estão na regra, logo abaixo.

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I  A REGRA

Polonês em 1920, polonês até hoje

A lei de 20 de janeiro de 1920, a Ustawa o obywatelstwie Państwa Polskiego (lei sobre a cidadania do Estado polonês), definiu quem nascia cidadão do país recém-criado. O critério central foi o registro de domicílio numa comuna do território polonês.

Por causa desse critério, o emigrante que saiu da aldeia antes de 1918 pode ter virado polonês morando em Curitiba. Se o nome dele seguia nos livros de população da comuna, a lei o alcançou sem que ele pisasse no país novo.

A partir daí, a cidadania desce pelo ius sanguinis (direito de sangue, em latim). O filho de pai polonês nascia polonês, mesmo nascido no Brasil e registrado como brasileiro no cartório.

Até 1951, a lei olhava para o pai. O filho nascido de casamento seguia a cidadania paterna, e só o filho de mãe solteira herdava da mãe. A lei de 19 de janeiro de 1951 abriu a transmissão pelos dois lados, e a lei atual, de 2 de abril de 2009, manteve a regra.

A confirmação pedida pelo descendente é um ato declaratório (que só reconhece um direito já existente). O Estado polonês não concede a cidadania ao bisneto: apenas atesta que ela o acompanha desde o nascimento.

Na lei polonesa, o trineto herda pela mesma porta do filho.

O QUE PARTE A CORRENTE

O caso mais comum é a naturalização voluntária. Pela lei de 1920, o polonês que pedia outra nacionalidade perdia a polonesa, e o filho nascido depois do pedido já nascia fora da corrente.

Havia uma trava para homens em idade de alistamento: sem quitar o serviço militar, a naturalização estrangeira não apagava a cidadania polonesa. Consulados e advogados usam essa regra para salvar linhas em que o bisavô se naturalizou jovem.

A mulher perdia a cidadania quando adquiria a nacionalidade do marido estrangeiro, porque a lei de 1920 fazia a esposa seguir o marido. A filha de polonês que se casou com brasileiro antes de 1951 costuma ser o elo partido das linhas maternas.

Adam Mickiewicz, poeta nascido no antigo Grão-Ducado da Lituânia e exilado em Paris, abriu o poema nacional polonês, "Pan Tadeusz" (Senhor Tadeu), com a saudade de uma terra que já não existia no mapa.

“Lituânia, pátria minha! Tu és como a saúde: quanto é preciso te estimar só sabe quem te perdeu.”

Adam Mickiewicz, "Pan Tadeusz", 1834

 
 

II  A VAGA

O passaporte que abre 27 países

O passaporte polonês é um passaporte da União Europeia. Quem confirma a cidadania ganha o direito de morar e trabalhar nos 27 países do bloco sem visto, sem autorização de trabalho e sem patrocínio de empregador.

O direito vale também na Noruega, na Islândia e em Liechtenstein, que formam com a União o Espaço Econômico Europeu, e na Suíça, por um acordo de livre circulação assinado com o bloco.

Para quem procura vaga, a mudança aparece no primeiro filtro do recrutador. O anúncio europeu que pede direito de trabalho na União deixa de eliminar o candidato brasileiro, e a empresa contrata sem abrir processo de imigração.

Na Alemanha, em Portugal ou na Irlanda, o cidadão europeu se registra na prefeitura ou no órgão local e começa a trabalhar. O cônjuge brasileiro recebe cartão de residência como familiar de cidadão da União, com direito a trabalhar também.

Profissão regulamentada segue pedindo validação. O médico, o engenheiro ou o advogado com passaporte europeu ainda precisa do diploma reconhecido no país de destino, mas o pedido corre pelas regras de reconhecimento entre cidadãos da União, sem a etapa do visto.

Com o passaporte bordô, o currículo brasileiro passa no filtro que antes o barrava.

Os filhos entram na corrente. A criança nascida depois da confirmação é polonesa de origem, e os filhos menores já nascidos podem ter a cidadania confirmada logo depois dos pais, porque a herança passa por eles.

O QUE A CIDADANIA COBRA

A lei de 2009 diz que o cidadão polonês com outra nacionalidade tem, diante da Polônia, só os direitos e deveres de polonês. Na prática, ele entra e sai da Polônia com documento polonês, e as autoridades do país o tratam como polonês, mesmo que mostre o passaporte brasileiro.

A cidadania brasileira continua intacta. A Constituição de 1988 permite a dupla nacionalidade quando a lei estrangeira reconhece uma nacionalidade de origem, que é o caso do descendente confirmado.

O serviço militar obrigatório está suspenso desde 2009, quando a Polônia passou a ter um exército só de profissionais. O descendente que vive no Brasil não recebe convocação por ter confirmado a cidadania.

O imposto segue a residência. Quem mora no Brasil continua declarando aqui, e só passa a pagar imposto de renda na Polônia ou em outro país da União quando muda a residência fiscal para lá.

 

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III  A ROTA

Do batistério ao passaporte

A sequência abaixo cobre o descendente que mora no Brasil e pede o potwierdzenie posiadania obywatelstwa polskiego (confirmação de posse da cidadania polonesa).

1. Localizar o registro de batismo ou de nascimento do antepassado na paróquia ou no arquivo estatal polonês, com o nome da aldeia e da comuna.

2. Reunir as provas de vínculo com a Polônia depois de 1920: passaporte polonês emitido após a independência, registro consular, documento militar ou anotação nos livros de população.

3. Pedir ao Ministério da Justiça e Segurança Pública a certidão negativa de naturalização do antepassado, que prova que ele não pediu a nacionalidade brasileira.

4. Juntar as certidões brasileiras de nascimento e casamento de cada geração, em inteiro teor, traduzidas por tradutor juramentado inscrito na Polônia.

5. Protocolar o pedido no consulado polonês, que o envia ao wojewoda (o governador da província) da Mazóvia, em Varsóvia, responsável por quem nunca morou no país.

6. Com a decisão positiva, pedir a transcrição da certidão de nascimento no USC (o cartório de registro civil polonês), receber o PESEL (o número de identificação civil polonês) e solicitar o passaporte.

O prazo de resposta raramente segue o que a lei administrativa promete. O escritório da Mazóvia recebe pedidos de descendentes do mundo inteiro, e a decisão costuma levar bem mais que os meses previstos no papel.

Quando a corrente se parte, sobram dois caminhos. O primeiro é a Karta Polaka (o cartão do polonês), dada a quem prova um dos pais ou avós poloneses, ou dois bisavós, fala polonês básico e declara pertencer à nação; ela dá acesso à residência permanente e abre a naturalização.

O segundo é a restauração da cidadania, prevista na lei de 2009 para quem a perdeu antes de 1999. Ela vale só para a pessoa que perdeu, ainda viva, e não socorre o descendente cujo bisavô se naturalizou.

Quem chegou ao Brasil antes de 15 de novembro de 1889 enfrenta um ponto a mais. A Constituição de 1891 fez brasileiro todo estrangeiro que morava no país na Proclamação da República e não recusou a nacionalidade em seis meses, a chamada grande naturalização, e o wojewoda decide caso a caso se ela quebrou a corrente.

Na cidadania polonesa, quem decide o pedido é o papel mais velho da gaveta da família.

"Em que ano o seu bisavô polonês assinou o primeiro papel brasileiro?"

As taxas polonesas somam 248 złotys (a moeda polonesa): 58 da confirmação, 50 da transcrição da certidão e 140 do passaporte de adulto. Com o złoty a R$ 1,47, a conta fecha em R$ 365 por pessoa, sem tradução juramentada, sem busca em arquivo e sem correio internacional (cotação de 30/09/2026).

 
 
 

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Pela regra da edição, em que data o antepassado precisava já ser cidadão polonês para o descendente pedir a confirmação da cidadania?

ANovembro de 1918, quando o país voltou a existir
B19 de janeiro de 1951, quando a lei abriu a transmissão pelos dois lados
C31 de janeiro de 1920, quando a primeira lei de cidadania entrou em vigor
D2 de abril de 2009, quando a lei atual foi aprovada

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