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O piso de US$ 25 mil do visto indiano

A Índia só dá visto de emprego a quem ganha acima de US$ 25 mil por ano, e solta do piso o cozinheiro típico e o professor de idioma.

Prédios de escritórios e copas de jacarandá vistos de um terraço em Indiranagar, Bengaluru.

Bengaluru vista de Indiranagar

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A 920 metros de altitude, no planalto do Decão, Bengaluru amanhece com 18 graus em pleno inverno, mais fresca e seca nas planícies do sul da Índia. Do terraço de um prédio em Indiranagar, a 6 quilômetros do centro, aparecem os parques de escritórios de vidro, as copas das árvores de jacarandá e o trânsito parado da Old Airport Road.

Naqueles escritórios trabalham empresas de software, bancos, montadoras e centros de serviço de multinacionais. A cidade passa de 13 milhões de habitantes na região metropolitana, e o inglês é a língua do trabalho em quase todo escritório de tecnologia.

Muita empresa estrangeira instalada ali quer trazer gente de fora: um gerente da matriz, um engenheiro especialista, um chef para o restaurante novo. A Índia aceita, mas cobra uma condição escrita em dólar.

O governo indiano só concede o visto de emprego, o Employment Visa (visto de trabalho, de sigla E), a quem tem contrato com salário acima de 25 mil dólares por ano. Abaixo do piso, o pedido não passa, mesmo com currículo forte.

A regra existe para proteger o trabalhador local. Num país com mais de 1,4 bilhão de habitantes e milhões de formados por ano, a vaga comum fica com o indiano, e o estrangeiro entra para o posto alto ou especializado.

O piso tem exceções. Algumas profissões ficam livres dele, porque o mercado indiano não forma gente suficiente para elas: o cozinheiro de cozinha típica estrangeira, o professor de idioma estrangeiro e o tradutor estão na lista.

Para o brasileiro, a lista abre uma porta curiosa. Um cozinheiro de comida baiana ou um professor de português pode trabalhar legalmente na Índia com salário bem abaixo do pago ao executivo da matriz.

Os três blocos seguintes mostram o piso e as exceções escritas pelo governo, um cozinheiro brasileiro contratado por um restaurante de Bengaluru e a ordem dos papéis, do contrato ao registro na polícia de estrangeiros.

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I  A REGRA

Um piso escrito em dólar

O visto de emprego da Índia é regulado pelo Ministry of Home Affairs (Ministério do Interior), em Nova Délhi. As regras ficam no Visa Manual (manual de vistos) publicado pelo ministério, e os consulados aplicam o mesmo texto em qualquer país.

O manual define o visto E como o visto para quem vai trabalhar com contrato numa empresa ou organização registrada na Índia. Quem vai só para reunião, feira ou visita a cliente usa o visto de negócios, de outra categoria.

“The foreign national being sponsored for an Employment Visa in any sector should draw a salary in excess of US $ 25,000 per annum.”

(Ministry of Home Affairs, Visa Manual, 2019)

A frase do manual diz, em português, que o estrangeiro patrocinado para um visto de emprego, em qualquer setor, deve receber salário acima de 25 mil dólares por ano. O valor entra no contrato e é conferido pelo consulado.

Na Índia, o salário do contrato decide o visto antes do diploma: abaixo de US$ 25 mil por ano, o pedido volta.

O PISO

Os 25 mil dólares equivalem a cerca de R$ 135 mil por ano, ou R$ 11,2 mil por mês. A conta inclui salário fixo, bônus garantido e benefícios pagos em dinheiro, todos escritos no contrato.

O manual ainda proíbe o visto E para trabalho rotineiro, comum ou de secretaria, e para vagas onde existam indianos qualificados disponíveis. O piso e a natureza da vaga são conferidos juntos.

AS EXCEÇÕES

O próprio manual lista quem fica livre do piso. Entram o cozinheiro de cozinha étnica (comida típica de outro país), o professor de idioma estrangeiro, exceto inglês, e o tradutor.

Também entram os funcionários contratados por embaixadas e altos comissariados (as representações diplomáticas dos países da Commonwealth) instalados na Índia. Para todas as categorias da lista, o resto da regra continua: contrato, empresa registrada e qualificação comprovada.

O EMPREGADOR

O pedido nasce na empresa indiana. Ela emite o contrato, a carta de oferta e a prova de registro no país, e o candidato leva os papéis ao consulado.

Quem trabalha por conta própria, sem empregador na Índia, não cabe no visto E. O freelancer estrangeiro não tem caminho de trabalho no país sem uma empresa local assinando o contrato.

O consulado pode pedir mais papéis à empresa, como balanço recente e prova de impostos pagos. Empresa recém-aberta, sem faturamento, costuma ter o pedido examinado com mais cuidado, porque o governo quer ver dinheiro para pagar o salário prometido.

 
 

II  A VAGA

Rafael cozinha moqueca em Bengaluru

Considere Rafael Menezes Duarte, nome dado aqui a um cozinheiro hipotético de 34 anos, nascido em Salvador (BA), com 12 anos de cozinha baiana em restaurantes de Salvador e de São Paulo.

Um grupo de restaurantes de Bengaluru abre uma casa de comida brasileira em Indiranagar e procura um chef de cozinha típica. A oferta chega pelo LinkedIn: 1,2 milhão de rúpias por ano, cerca de US$ 14 mil, com moradia paga.

O salário fica abaixo do piso de US$ 25 mil. Para um engenheiro ou um gerente, o pedido pararia ali. Rafael, porém, entra na exceção do cozinheiro de cozinha étnica.

O contrato de Rafael passa no consulado com salário de US$ 14 mil porque a moqueca dele é cozinha étnica para a lei indiana.

A OFERTA

O restaurante manda a carta de oferta, o contrato com a função de chef de cozinha brasileira e o registro da empresa no Ministério de Assuntos Corporativos da Índia. A função escrita no contrato precisa casar com a exceção.

Rafael junta os certificados de cursos de gastronomia e cartas dos restaurantes onde trabalhou, com datas e cargos. A experiência comprovada mostra ao consulado um especialista, e não um ajudante de cozinha.

A CHEGADA

Com o visto E aprovado por um ano, Rafael desembarca em Bengaluru. Em até 14 dias, ele se registra no FRRO (o escritório regional de registro de estrangeiros), pelo portal e-FRRO, porque o visto passa de 180 dias.

O registro gera um documento de residência. Com ele, Rafael abre conta num banco indiano, tira o PAN (o número de contribuinte do país) e assina o aluguel em nome próprio quando sair da moradia paga.

Na cozinha, Rafael treina quatro cozinheiros indianos no dendê, no leite de coco e no ponto do acarajé. O contrato prevê esse treino, e o restaurante usa o item como mais uma prova de especialista estrangeiro na renovação.

A FAMÍLIA

A mulher de Rafael, Carla, entra com visto X (o visto de entrada para dependentes), com o mesmo prazo do dele. Ela pode morar e estudar na Índia, mas não pode trabalhar com esse visto.

Se Carla receber oferta de emprego, precisa de um visto E próprio, com contrato e piso salarial próprios, ou com encaixe numa das exceções.

OS IMPOSTOS

Rafael passa a residente fiscal indiano ao ficar 182 dias ou mais no país no ano fiscal, de abril a março. O imposto é retido na fonte pelo restaurante, com base no PAN.

No Brasil, ele entrega a Declaração de Saída Definitiva do País à Receita Federal. Brasil e Índia têm acordo para evitar a dupla tributação, assinado em 1988.

 

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III  A ROTA

Do contrato ao registro

O pedido do visto de emprego indiano é feito pela internet e termina no consulado. A ordem dos papéis segue sete passos.

1. O empregador indiano emite a carta de oferta e o contrato com salário anual, função e prazo.

2. O candidato confere se o salário passa de US$ 25 mil por ano ou se a função entra numa das exceções do manual.

3. Junta o passaporte com validade mínima de seis meses, fotos, diplomas e cartas de experiência.

4. Preenche o formulário no portal Indian Visa Online e escolhe o visto E.

5. Agenda o atendimento no centro de vistos indicado pelo consulado da Índia, em São Paulo ou em Brasília.

6. Entrega os papéis, paga a taxa e deixa as digitais.

7. Recebe o passaporte com o visto e, ao chegar, faz o registro no e-FRRO em até 14 dias.

O visto de emprego não sai pelo e-Visa, o visto eletrônico indiano. O e-Visa cobre turismo, negócios e tratamento médico, mas não contrato de trabalho.

O primeiro visto E vale por até um ano ou pelo prazo do contrato, o menor dos dois. Quem entra com visto de turista não pode trocar para o de emprego dentro da Índia: o pedido sai do país de origem.

A RENOVAÇÃO

Completado o primeiro ano, Rafael pede a extensão no próprio e-FRRO, sem voltar ao Brasil. Ele mostra o contrato renovado, os contracheques e a prova de imposto retido.

A extensão pode somar até cinco anos de visto E, contados da primeira emissão. Depois disso, o caminho é um visto novo, pedido de novo no Brasil.

Se o restaurante fechar ou Rafael pedir demissão, o visto perde a base. Ele sai da Índia ou começa outro pedido com um novo empregador.

“Sua profissão passa no piso de US$ 25 mil ou cabe numa das exceções indianas?”

A ida de Rafael sai por cerca de R$ 8.900, com a taxa do visto de emprego de um ano, o atendimento no centro de vistos, a passagem só de ida de São Paulo a Bengaluru com escala e o primeiro mês de despesas antes do salário (cotação de 02/11/2026).

 
 
 

Quiz da edição

No manual de vistos da Índia citado na edição, qual profissional abaixo NÃO entra na lista de isenções do piso de US$ 25 mil por ano?

ACozinheiro de cozinha étnica
BProfessor de inglês
CTradutor
DProfessor de idioma estrangeiro, exceto inglês

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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