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O visto da colheita americana

As buscas pelo H-2A cresceram 31 vezes em cinco anos. O visto agrícola dos EUA vem com moradia paga e contrato de até um ano.

Fileiras de macieiras no vale de Yakima, em Washington, com escadas encostadas nas árvores na colheita.

Pomar de maçã no vale de Yakima, Washington

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A 330 metros de altitude, no vale de Yakima, no centro do estado de Washington, as macieiras correm em fileiras até a base das colinas secas. Em setembro, a colheita começa antes das 7 da manhã, quando o frio ainda segura a fruta firme no galho.

O vale produz boa parte das maçãs vendidas nos Estados Unidos. Escadas de alumínio encostam nas árvores, e cada colhedor carrega no peito uma sacola de lona, que ele esvazia em caixas de madeira de quase meia tonelada. Um colhedor experiente enche várias dessas caixas por dia, e o pagamento por caixa soma ao salário por hora.

Quem sobe nessas escadas, em grande parte, veio de fora. Os pomares contratam trabalhadores estrangeiros por temporada, com um visto feito para a lavoura: o H-2A, previsto na lei de imigração americana para o trabalho agrícola temporário ou sazonal.

A regra do visto inverte a ordem que o brasileiro conhece dos consulados. Quem pede primeiro é o fazendeiro. Ele prova ao governo americano que não achou gente suficiente no próprio país, oferece salário fixado por tabela oficial e assume a moradia, o transporte e as ferramentas do trabalhador.

Para o trabalhador, o pacote cabe numa frase: contrato de até um ano, casa sem aluguel e passagem reembolsada. Em troca, ele trabalha só para o empregador que assinou o pedido e volta ao Brasil quando a temporada termina.

O visto existe desde 1986, mas por décadas ficou restrito a quem tinha parente ou conhecido nos pomares. Agora ele circula em grupo de WhatsApp de cidade do interior, do tratorista de Goiás ao operador de colheitadeira do Mato Grosso, e também em anúncio de agência que cobra pela vaga, o que a lei proíbe.

Os três blocos seguintes trazem o tamanho dessa procura e as regras do visto, um tratorista goiano numa temporada de maçã e a ordem dos papéis, do anúncio da vaga à entrevista no consulado.

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I  A REGRA

O visto sem teto anual

No Google Trends, a busca por “visto h2a” no Brasil cresceu 31 vezes em cinco anos. Nas últimas 13 semanas, subiu mais 1,27 vez e bateu 100% do pico, o ponto mais alto da série, em outubro de 2026.

O Planner do Google Ads mostra o mesmo movimento em volume. A média mensal de buscas foi de 590 para 4 mil em 12 meses, uma alta de 7,5 vezes (augurium, painel de tendências da rede, leitura de 26/10/2026).

O H-2A é o visto de trabalho temporário dos Estados Unidos para a agricultura. Ele cobre plantio, colheita, poda, operação de máquina agrícola e manejo de gado em temporada, desde que o serviço tenha prazo para terminar.

“An alien having a residence in a foreign country which he has no intention of abandoning who is coming temporarily to the United States to perform agricultural labor or services of a temporary or seasonal nature.”

(Congresso dos EUA, Immigration and Nationality Act, seção 101(a)(15)(H)(ii)(a), 1952, com a redação de 1986)

O texto da lei pede duas condições. O trabalhador mantém residência no país de origem, e o serviço é temporário ou sazonal. Quem pretende ficar de vez nos Estados Unidos precisa de outra categoria de visto.

O H-2A não tem cota anual: cada vaga certificada pelo Departamento do Trabalho pode virar um visto.

O TETO

O H-2B, o visto irmão para trabalho temporário fora da lavoura, para em 66 mil vistos por ano fiscal. O H-2A não tem limite. No ano fiscal de 2023, o Departamento do Trabalho certificou mais de 370 mil vagas agrícolas temporárias.

O Brasil está na lista de países elegíveis, publicada pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) no Federal Register, o diário oficial americano. Sem o país na lista, o consulado não emite o visto.

O SALÁRIO

O empregador paga, no mínimo, o maior de três valores: o Adverse Effect Wage Rate (taxa salarial de efeito adverso, a AEWR), o salário mínimo do estado e o salário corrente da região para a função. A AEWR sai por estado e muda todo ano.

O contrato traz ainda a garantia de três quartos. O empregador oferece pelo menos 75% das horas prometidas no período, mesmo quando a chuva ou a geada param a colheita.

O PRAZO

Cada certificação vale por até um ano. Com extensões, o trabalhador fica até três anos seguidos nos Estados Unidos. Depois, passa três meses fora do país antes de pedir um H-2A novo.

O cônjuge e os filhos menores de 21 anos podem entrar com o visto H-4, de dependente, mas não podem trabalhar. Na prática, a maioria dos trabalhadores viaja sozinha.

 
 

II  A VAGA

Rafael colhe maçã em Yakima

Considere Rafael Moreira Lima, nome dado aqui a um tratorista hipotético de 29 anos, nascido em Rio Verde (GO), com seis anos de trabalho em fazendas de soja e milho do sudoeste goiano.

Um pomar de maçã no vale de Yakima abre pedido para 40 colhedores e quatro tratoristas, de agosto a novembro. O anúncio sai no SeasonalJobs.dol.gov, o portal oficial do Departamento do Trabalho, com salário por hora, horário e endereço da moradia.

Rafael encontra a vaga por um recrutador que trabalha para o pomar. A carteira de motorista e as fotos dele no trator pesam mais na seleção do que o inglês, que ele fala pouco.

Rafael não paga nada para conseguir a vaga: no H-2A, quem paga o recrutamento é o pomar.

A TAXA PROIBIDA

A regra do Departamento do Trabalho proíbe o empregador e os recrutadores dele de cobrar taxa de colocação do trabalhador. O pomar assina um contrato com a agência que o proíbe de repassar o custo ao candidato.

Agência brasileira que cobra para “garantir a vaga” no H-2A trabalha fora dessa regra. O pomar que descobre a cobrança precisa devolver o valor ao trabalhador, e pode perder o direito de contratar pelo programa.

A CASA DO POMAR

O pomar oferece moradia sem aluguel, inspecionada pelo governo antes da chegada dos trabalhadores. Rafael divide um alojamento com outros três tratoristas, a dez minutos de carro das fileiras de macieiras.

A cozinha vem equipada, com fogão e geladeira, ou o pomar serve três refeições por dia a preço fixado em tabela. O transporte diário entre a casa e o pomar também sai por conta do empregador.

As ferramentas do trabalho, das escadas às sacolas de lona, são do pomar. O empregador não pode descontar delas no salário.

A PASSAGEM

Rafael paga a passagem de ida e a taxa consular. O pomar devolve os dois valores quando ele completa metade do contrato, e paga a volta se ele cumprir o contrato até o fim.

O salário cai em conta americana toda semana ou a cada duas semanas. Rafael manda parte do dinheiro para Rio Verde por aplicativo de remessa, com o câmbio do dia.

O FIM DA TEMPORADA

Em novembro, a colheita termina e Rafael volta ao Brasil. O registro de que cumpriu o contrato e saiu no prazo conta a favor dele na próxima entrevista consular.

Muitos pomares chamam a mesma equipe no ano seguinte. Para Rafael, a segunda temporada começa com um recrutador conhecido e um visto já carimbado uma vez no passaporte.

 

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III  A ROTA

Da certificação ao consulado

O pedido anda numa ordem fixa, e as três primeiras etapas ficam com o empregador americano.

1. O empregador registra a oferta na agência estadual de emprego, de 60 a 75 dias antes do início do trabalho.

2. Pede a certificação de trabalho temporário ao Departamento do Trabalho, pelo formulário ETA-9142A.

3. Com a certificação, protocola o formulário I-129 no Serviço de Cidadania e Imigração (USCIS).

4. O trabalhador tira o passaporte na Polícia Federal.

5. Preenche o formulário DS-160, o pedido de visto online.

6. Paga a taxa consular e agenda a entrevista.

7. Faz a entrevista e entra nos EUA até sete dias antes do início do contrato.

A entrevista acontece no consulado americano em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre ou em Recife, ou na embaixada em Brasília. O agente consular pode conduzir a conversa em português.

Na pasta, Rafael leva o passaporte, a confirmação do DS-160, o número do pedido aprovado no USCIS e a cópia do contrato com o pomar. Comprovantes de vínculo com o Brasil, como casa, família e terra, ajudam a mostrar que ele vai voltar.

O consulado coleta as digitais no dia da entrevista. O passaporte volta pelo correio ou por ponto de retirada, com o visto colado numa das páginas.

Na fronteira americana, o agente de imigração confere o visto e registra a entrada. O prazo de permanência vai até o fim do contrato, com alguns dias a mais para a viagem de volta.

Quem encontra uma vaga pela internet confere o número do pedido no portal SeasonalJobs.dol.gov antes de mandar qualquer documento. Vaga sem registro no portal não tem certificação.

O calendário das temporadas acompanha a fruta e o grão. A maçã de Washington vai de agosto a novembro, o mirtilo da Geórgia começa em abril, e a colheita de trigo nas Grandes Planícies anda do Texas a Dakota do Norte entre maio e setembro.

“Qual temporada americana caberia hoje no seu calendário?”

A pasta de Rafael sai por cerca de R$ 1.700, com passaporte da Polícia Federal, taxa consular de US$ 205 e ônibus de Rio Verde a São Paulo para a entrevista; a taxa e a passagem aérea voltam a ele pelo pomar na metade do contrato, e a moradia na temporada sai a zero (cotação de 31/10/2026).

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o texto, qual desses vistos de trabalho temporário dos Estados Unidos tem limite de 66 mil concessões por ano fiscal?

AH-2A
BH-2B
CH-4
DI-129

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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