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Os 365 dias que a Geórgia dá ao brasileiro sem visto

Um ano inteiro de estadia, registro de autônomo e imposto de 1% sobre o faturamento, sem que o carimbo vire residência.

Fortaleza de Narikala sobre os telhados da cidade velha de Tbilisi, na Geórgia.

A fortaleza de Narikala, em Tbilisi

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A uns 450 metros de altitude, no alto da colina de Sololaki, a fortaleza de Narikala vê Tbilisi inteira. Lá embaixo corre o rio Mtkvari, os telhados de ferro da cidade velha descem até a margem e, nos dias limpos, o Cáucaso aparece branco no horizonte norte.

Quem sobe o teleférico até a fortaleza ouve português com mais frequência a cada ano. Programador, designer, tradutor e editor de vídeo desembarcam no aeroporto de Tbilisi com passaporte brasileiro e saem da fila da imigração com um carimbo simples, sem formulário e sem taxa.

O carimbo vale 365 dias. A Geórgia mantém uma lista de cerca de 95 países cujos cidadãos entram sem visto e ficam um ano inteiro, e o Brasil está nela desde a reforma migratória de 2015.

O prazo de um ano é raro no mapa. Na zona Schengen, que reúne 29 países europeus, o brasileiro fica 90 dias a cada 180. No Reino Unido, até seis meses. A Geórgia dá o dobro do britânico com a mesma folha do passaporte.

O segundo atrativo está na Casa de Serviços Públicos, o prédio de vidro onde o georgiano tira documento, registra imóvel e abre empresa. Ali o estrangeiro se registra como empreendedor individual em poucos minutos, com o passaporte e um endereço.

Com o registro em mãos, o autônomo pede à Receita georgiana o status de pequeno negócio. A partir dele, o imposto de renda sobre o trabalho vira uma alíquota de 1% sobre o faturamento, enquanto a soma do ano não passar de 500 mil laris (a moeda georgiana).

O ano sem visto, porém, tem um limite que muita gente descobre tarde: ele não conta como residência. Doze meses de carimbo não dão cartão de residente, não abrem a cidadania e não garantem que o próximo carimbo virá.

Quem entra, o que o carimbo permite e onde o turista para de ser turista estão na regra, logo abaixo.

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I  A REGRA

Um carimbo de 365 dias

A base legal é a Lei sobre o Status Legal de Estrangeiros e Apátridas, aprovada pelo parlamento georgiano em 2014, e o decreto do governo que lista os países com isenção de visto. O decreto fixa a estadia de até um ano para os cidadãos da lista.

O brasileiro entra com passaporte válido por todo o período da viagem. O agente de fronteira pode pedir passagem de saída, reserva de hospedagem e seguro de saúde, que é obrigatório para o visitante estrangeiro desde 2018.

O seguro precisa cobrir o tempo inteiro da estadia. Quem planeja ficar o ano todo compra uma apólice anual, e as seguradoras georgianas vendem o produto em lari, aceito sem discussão na fronteira.

O valor mínimo de cobertura é fixado pelo governo georgiano e inclui atendimento de urgência e repatriação. A apólice comprada no Brasil também serve, desde que traga o período e a cobertura escritos em inglês.

O carimbo não proíbe trabalhar. A Geórgia permite que o estrangeiro isento de visto trabalhe ou preste serviço no país sem autorização de trabalho separada, e por esse motivo o registro de autônomo cabe no ano turístico.

Na Geórgia, o carimbo da fronteira já basta para abrir o próprio negócio.

QUANDO O ANO RECOMEÇA

Ao fim dos 365 dias, o visitante sai do país. Pela prática atual da fronteira, ele pode voltar e receber um carimbo novo, com outro ano de prazo, mas a decisão é do agente da imigração e nenhuma lei garante a renovação automática.

A estadia além do prazo sem autorização vira multa, aplicada na saída, e o estrangeiro que acumula infração pode ter a entrada negada nas viagens seguintes.

O valor da multa cresce com os dias de atraso e é pago no aeroporto antes do embarque. Quem passa de 90 dias além do prazo também pode receber proibição de entrar de novo por um período definido pela polícia de fronteira.

O ano turístico também não soma tempo para residência permanente. O cartão de residente georgiano exige um motivo formal, como contrato de trabalho, matrícula em universidade, casamento ou investimento, pedido na Casa de Serviços Públicos com documentos próprios.

Shota Rustaveli, o poeta medieval que a Geórgia trata como fundador da sua literatura, escreveu na corte da rainha Tamar o épico que o país lê na escola.

“O que dás é teu; o que guardas está perdido.”

Shota Rustaveli, "O Cavaleiro na Pele de Tigre", século XII

 
 

II  A VAGA

O autônomo que paga 1%

O regime vale para pessoa física registrada como empreendedor individual. A empresa limitada, a LLC georgiana, segue outro modelo de imposto e não pede status de pequeno negócio.

O registro sai na Casa de Serviços Públicos de Tbilisi, de Batumi ou de Kutaisi. O estrangeiro leva o passaporte, o endereço de atividade, que pode ser o apartamento alugado com autorização do dono, e o código da atividade econômica.

Depois do registro, o pedido do status de pequeno negócio é feito no portal da Receita georgiana, o rs.ge, sem taxa. O status passa a valer no mês seguinte ao pedido aprovado.

A alíquota de 1% incide sobre todo o faturamento, sem desconto de despesa. Quem fatura 8 mil laris num mês paga 80 laris de imposto, declarado todo mês no mesmo portal até o dia 15 do mês seguinte.

Se a soma do ano passa de 500 mil laris, a alíquota sobe para 3% sobre o excedente. Se passar de 700 mil laris, o autônomo perde o status e cai no regime geral, com imposto de renda de 20% sobre o lucro.

O limite é anual e corre pelo ano civil, de janeiro a dezembro. Quem se registra em outubro tem só três meses para somar os 500 mil laris, e o contador do portal zera em 1º de janeiro.

Programador que vende para fora paga 1% em Tbilisi enquanto fatura até 500 mil laris por ano.

QUEM FICA FORA

A lei barra do regime as atividades que pedem licença ou autorização estatal, como medicina e farmácia, e a prestação de serviço de consultoria. O código escolhido no registro decide o enquadramento, e a Receita revisa o código quando o tipo de trabalho não bate com ele.

Programação, design, edição de vídeo, tradução e marketing digital costumam entrar sem obstáculo. O cliente pode estar em qualquer país, inclusive no Brasil, e o dinheiro entra numa conta em banco georgiano aberta com o registro de empreendedor.

O Bank of Georgia e o TBC Bank abrem conta para o estrangeiro com o extrato do registro e o passaporte. A conta recebe em lari, dólar ou euro, e o pedido de abertura costuma sair no balcão da agência, com cartão emitido em seguida.

O autônomo também pode emitir fatura em inglês para o cliente estrangeiro, com o número de identificação recebido no registro. Esse número aparece em todo documento fiscal e é ele que a Receita georgiana cruza com os depósitos da conta.

O status de pequeno negócio não dispensa a contabilidade simples. O empreendedor guarda as faturas e os extratos por seis anos, prazo em que a Receita pode revisar as declarações mensais.

 

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III  A ROTA

Do carimbo ao imposto de 1%

A sequência abaixo cobre o brasileiro que trabalha remoto e quer usar o ano na Geórgia com o registro de autônomo.

1. Comprar seguro de saúde válido para toda a estadia e levar impressa a apólice, a reserva de hospedagem e a passagem de saída.

2. Entrar pelo aeroporto de Tbilisi ou de Kutaisi e conferir no passaporte a data do carimbo, que marca o início dos 365 dias.

3. Alugar um endereço e pedir ao dono uma autorização escrita para registrar a atividade no imóvel.

4. Ir à Casa de Serviços Públicos com passaporte, autorização do endereço e código da atividade, e registrar o empreendedor individual.

5. Abrir a conta comercial no Bank of Georgia ou no TBC Bank com o extrato do registro.

6. Pedir o status de pequeno negócio no portal rs.ge e declarar o faturamento todo mês até o dia 15.

A residência fiscal georgiana nasce com 183 dias no país dentro de 12 meses. Quem chega a esse número vira contribuinte residente na Geórgia, mas não deixa de ser residente no Brasil sem a Comunicação de Saída Definitiva entregue à Receita Federal.

O Brasil não tem acordo com a Geórgia para evitar a dupla tributação. Quem mantém a residência brasileira declara a renda de fora no carnê-leão e pode ter de pagar a diferença aqui, mesmo com o 1% quitado em Tbilisi.

Para morar de vez, o caminho passa por um cartão de residência. A compra de imóvel de pelo menos 100 mil dólares dá residência temporária renovável, e o investimento de 300 mil dólares abre a residência permanente de investidor.

O contrato de trabalho com empresa georgiana também abre residência temporária, renovada enquanto o vínculo durar. Depois de seis anos seguidos com residência temporária, o estrangeiro pode pedir a permanente, e só a partir daí a naturalização entra no horizonte.

Na Geórgia, o carimbo dá um ano de trabalho e nenhum dia de residência.

"Em que dia do mês você entregaria a sua primeira declaração no rs.ge?"

O registro de empreendedor custa 50 laris na Casa de Serviços Públicos, e o imposto sobre 8 mil laris de faturamento mensal fica em 80 laris. Com o lari a R$ 2,05, a conta fecha em R$ 103 de registro e R$ 164 de imposto por mês, sem seguro, sem aluguel e sem contador (cotação de 01/10/2026).

 
 
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Pelo regime de pequeno negócio na Geórgia, a partir de qual soma anual a alíquota passa de 1% para 3% sobre o excedente?

A300 mil laris
B700 mil laris
C500 mil laris
D1 milhão de laris

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