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Riad vende residência por 800 mil riais

Desde 2019, o Premium Residency saudita dispensa o patrocinador local e deixa o estrangeiro trabalhar e abrir empresa no reino.

Avenidas retas de Riad vistas do alto da Kingdom Tower, com o deserto ao fundo.

Riad, a 612 metros de altitude

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A 24 graus de latitude norte e 612 metros de altitude, no planalto de Najd, Riad ocupa um pedaço de deserto plano a quase 400 quilômetros do Golfo Pérsico. Do mirante do 99º andar da Kingdom Tower, a 300 metros do chão, a cidade se espalha em avenidas retas até sumir na poeira cor de areia.

Riad é a capital da Arábia Saudita e tem mais de sete milhões de habitantes. Perto de quatro em cada dez moradores vieram de fora do reino: engenheiros, médicos, motoristas, professores, cozinheiros e operários de obra, vindos da Índia, do Paquistão, do Egito, das Filipinas e de dezenas de outros países.

Por décadas, quase todos eles viveram sob a mesma regra. O estrangeiro só entrava no reino com um patrocinador local, o kafeel, em geral o próprio empregador. O visto de residência, a troca de emprego e até a saída do país dependiam da assinatura dele.

Em 2019, o governo saudita abriu uma porta paralela. Criou o Premium Residency, uma residência vendida pelo próprio Estado, sem empregador no meio. O estrangeiro paga a taxa, passa pela análise e recebe o direito de morar, trabalhar e abrir negócio no reino em nome próprio.

O preço ficou escrito na lei desde o primeiro dia. A versão permanente custa 800 mil riais, pagos uma vez só. A versão limitada custa 100 mil riais por ano e se renova enquanto o titular quiser seguir pagando.

O programa faz parte da Visão 2030, o plano do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para tirar a economia saudita da dependência do petróleo. Atrair capital, empresas e profissionais de fora entrou na lista de metas.

Para o brasileiro, a conta parece cara à primeira vista. Mas a residência entrega uma liberdade que o visto de trabalho comum nunca deu no reino: o titular troca de emprego, contrata, vende e viaja sem pedir licença a ninguém.

Abaixo estão a lei que tirou o patrocinador do caminho, uma engenheira de Recife com empresa própria em Riad e os passos do portal até o cartão.

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I  A REGRA

O fim do kafeel para quem paga

O Premium Residency nasceu de uma lei aprovada pelo Conselho de Ministros saudita em maio de 2019. As primeiras residências saíram no fim daquele ano, pelo Premium Residency Center, o órgão criado para analisar os pedidos e emitir os cartões.

A lei criou duas modalidades. A permanente, de 800 mil riais, vale sem prazo. A limitada, de 100 mil riais por ano, pode ser comprada por um ano ou por vários anos de uma vez, sempre com o mesmo valor anual.

Em janeiro de 2024, o governo acrescentou cinco categorias novas, ligadas ao perfil do pedido: talento especial, pessoa de talento excepcional, investidor, empreendedor e proprietário de imóvel. Cada uma tem requisito próprio, e algumas cobram taxa única menor.

Na Premium Residency, o patrocinador do estrangeiro passa a ser o próprio Estado saudita.

O QUE O CARTÃO LIBERA

O titular mora no reino com cônjuge e filhos, e a família recebe residência junto. Ele pode contratar empregada doméstica e motorista com visto próprio, sem depender de empresa para assinar.

O trabalho fica livre no setor privado. O titular troca de empregador quando quiser, sem pedir transferência de patrocínio, e pode abrir empresa em nome próprio, dentro das regras de investimento estrangeiro do Ministério do Investimento.

A residência também libera a compra de imóvel residencial, comercial e industrial, com algumas restrições em Meca, Medina e áreas de fronteira. O titular entra e sai do reino sem visto de reentrada, usa as filas dos cidadãos nos aeroportos e não paga a taxa mensal cobrada dos dependentes de estrangeiros.

O QUE A LEI COBRA

O pedido exige passaporte válido, idade mínima de 21 anos, ficha criminal limpa e prova de capacidade financeira. Quem já mora no reino precisa estar com a residência em dia.

O exame médico entra no processo, com laudo emitido por clínica reconhecida. A taxa paga não volta se o pedido for negado depois da análise.

A residência pode cair. Condenação criminal com pena de prisão, informação falsa no pedido ou atraso no pagamento da versão anual cancelam o cartão. A permanente tampouco passa para herdeiros: termina com o titular.

O cartão não dá cidadania. O titular segue estrangeiro, com passaporte brasileiro, e a naturalização saudita corre por outra lei, com outras exigências.

A análise também olha o histórico do pedido. Quem já teve visto cancelado, multa de imigração em aberto ou saída irregular do reino costuma precisar resolver a pendência antes de entrar com o pedido da residência.

 
 

II  A VAGA

Uma engenheira de Recife em Riad

Considere Juliana Arruda Cavalcanti, nome dado aqui a uma engenheira civil hipotética de 39 anos, nascida no Recife (PE), com onze anos de trabalho em gestão de obras de grande porte no Brasil e no Oriente Médio.

Juliana chega a Riad com um contrato de gerente de projeto numa construtora de capital europeu. O visto dela é de trabalho comum: a construtora aparece como patrocinadora, e qualquer mudança de emprego depende de transferência assinada pela empresa.

Depois de três anos, ela recebe convites de outras obras. Os grandes projetos da Visão 2030 procuram gerentes com experiência em canteiro, e Juliana quer abrir uma consultoria própria de planejamento de obra.

Juliana pagou para que a próxima mudança de emprego dependesse só dela.

A CONTA DA ESCOLHA

Juliana faz as contas das duas versões. A permanente custa 800 mil riais de uma vez, cerca de R$ 1,15 milhão. A limitada custa 100 mil riais por ano, cerca de R$ 144 mil, e ela pretende ficar pelo menos cinco anos no reino.

Ela escolhe a limitada. Prefere pagar ano a ano e guardar o capital para a consultoria, com a opção de migrar para a permanente se o negócio crescer e a família decidir ficar mais tempo.

O pedido sai pelo portal do Premium Residency Center. Juliana sobe passaporte, extrato bancário, certificado de antecedentes criminais do Brasil apostilado e o laudo médico, e paga a taxa pelo sistema eletrônico.

O PRIMEIRO ANO SEM KAFEEL

O cartão chega aprovado em algumas semanas. No mesmo mês, Juliana deixa a construtora sem precisar da assinatura dela e registra a consultoria no Ministério do Investimento, com licença de serviços de engenharia.

A primeira cliente é uma incorporadora saudita que toca um conjunto residencial no norte de Riad. Juliana contrata dois engenheiros, um filipino e um egípcio, com vistos patrocinados pela própria consultoria.

O marido dela, professor de inglês, chega com residência de dependente e consegue vaga numa escola internacional. A filha de oito anos entra na mesma escola, com aulas em inglês e árabe.

No fim do primeiro ano, a consultoria fatura com três contratos. Juliana renova a residência limitada pelo portal, paga mais 100 mil riais e segue no reino sem nenhum empregador entre ela e o visto.

Quando a construtora antiga oferece um contrato de consultoria, Juliana assina como fornecedora, com nota emitida pela própria empresa. A mesma obra que antes controlava o visto dela agora paga a fatura no fim do mês.

 

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III  A ROTA

Do portal ao cartão em Riad

A rota abaixo vale para brasileira ou brasileiro que quer morar e trabalhar na Arábia Saudita pelo Premium Residency, e cada passo depende do anterior.

1. Escolher a modalidade: permanente, limitada ou uma das categorias novas.

2. Juntar prova de renda ou patrimônio compatível com o pedido.

3. Tirar antecedentes criminais no Brasil e apostilar o documento.

4. Fazer exame médico em clínica reconhecida pelo reino.

5. Abrir o pedido no portal do Premium Residency Center.

6. Pagar a taxa e esperar a análise.

7. Receber o cartão e registrar a família como dependente.

O pedido pode sair de fora do reino. Quem ainda mora no Brasil entra com visto de visitante depois da aprovação e completa o registro em território saudita, com biometria e emissão do cartão físico.

A versão limitada exige atenção ao calendário. O pagamento anual precisa sair antes do vencimento, e o atraso pode levar ao cancelamento da residência e da família junto.

Abrir empresa pede um passo extra. A licença do Ministério do Investimento depende da atividade escolhida, e algumas áreas seguem fechadas ou limitadas a capital estrangeiro.

O idioma pesa menos do que se imagina em Riad. Empresas privadas, bancos e órgãos voltados a estrangeiros atendem em inglês, mas contratos públicos e parte da burocracia saem em árabe, e tradutor juramentado entra na conta.

O calendário também muda o dia a dia. A semana de trabalho vai de domingo a quinta-feira, o verão passa dos 45 graus e, no Ramadã, a jornada encurta e o comércio funciona até tarde da noite.

O imposto conta a favor. A Arábia Saudita não cobra imposto de renda de pessoa física sobre salário, mas a empresa paga imposto sobre lucro e o reino cobra 15% de imposto sobre consumo.

O custo de vida em Riad gira em torno da moradia. Aluguel de apartamento de três quartos em bairro com escola internacional por perto consome boa parte do orçamento, e a escola dos filhos costuma vir logo atrás na lista de gastos.

“Você pagaria a residência de uma vez ou ano a ano?”

A residência limitada de Juliana custa 100 mil riais por ano, cerca de R$ 144 mil a R$ 1,44 por rial, com cônjuge e filha incluídos como dependentes, sem exame médico, tradução e licença da empresa (cotação de 28/10/2026).

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quando o Conselho de Ministros saudita aprovou a lei que criou o Premium Residency?

AJaneiro de 2024
BMaio de 2019
CDezembro de 2019
DJaneiro de 2020

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