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ED 043
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Uruguai dá cidadania ao brasileiro, mas não a nacionalidade

Três anos de residência com família, cinco sem ela, e a Constituição de Montevidéu separa o cidadão legal do nacional.

Vista do Cerro de Montevidéu sobre a baía e a Rambla, com o porto ao fundo.

Montevidéu, a 34 graus e 54 minutos sul

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A 34 graus e 54 minutos de latitude sul, no topo do Cerro de Montevidéu, 134 metros acima do Rio da Prata, a fortaleza de pedra do século 19 enxerga a cidade inteira: o porto, a Rambla que acompanha a costa por mais de 20 quilômetros e, nos dias limpos, a torre do Palácio Salvo no centro.

É dessa capital que sai um dos caminhos mais curtos da América do Sul para o brasileiro que quer um segundo documento de cidadão. A Constituição uruguaia de 1967, no artigo 75, dá ciudadanía legal (cidadania concedida ao estrangeiro, por oposição à de quem nasce no país) a quem mora ali há três anos e tem família constituída no Uruguai.

Sem família, o prazo sobe para cinco anos. Nos dois casos, o texto pede boa conduta e algum meio de vida comprovado: capital, imóvel, profissão, ciência, arte ou ofício.

O brasileiro chega a essa contagem com vantagem. O Acordo de Residência do Mercosul, que o Uruguai internalizou pela Lei 19.254, de 2014, permite pedir residência permanente logo na chegada, com documento de identidade, certidão de antecedentes e pouco mais.

A surpresa vem no papel. O uruguaio naturalizado recebe carta de ciudadanía, vota, pode ser eleito deputado e senador depois de alguns anos, mas continua, para a lei do país, estrangeiro de nacionalidade. A Constituição separa as duas palavras, e o Uruguai não tem naturalização no sentido que o Brasil conhece.

Para quem trabalha lá, a distinção pesa pouco no dia a dia e muito nos detalhes: passaporte, cargo público, viagem a terceiros países e o risco de perder o título.

O desenho vem de uma leitura antiga da nação: nacionalidade seria um vínculo de sangue e solo, que ninguém ganha por decreto. A cidadania, vínculo político, se concede a quem se integra.

Como a Constituição define cada categoria, quem conta os anos e o que o cidadão legal pode e não pode fazer estão logo abaixo, na regra.

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I  A REGRA

Cidadão por lei, estrangeiro por origem

O artigo 73 da Constituição uruguaia divide os cidadãos em dois grupos, naturais e legais, e o artigo 74 define o primeiro: natural é quem nasce no território e o filho de pai ou mãe uruguaia nascido fora, que vem morar no país e se inscreve no Registro Cívico. Legal é o estrangeiro que conquista o título pelos requisitos do artigo 75.

O mesmo artigo 75 tem três portas. A primeira é a dos três anos, para quem tem família constituída no país, ou seja, cônjuge, companheiro ou filhos vivendo ali. A segunda é a dos cinco anos, para quem mora sem família. A terceira vale para quem recebe o título por graça da Assembleia Geral, em caso de serviço notável.

Os anos contam como residência habitual. A Corte Eleitoral, o órgão que concede a carta, confere as entradas e saídas registradas pela Direção Nacional de Migração, e ausência longa pode travar o pedido.

A carta de cidadania dá voto e cargo ao brasileiro, mas a Constituição uruguaia nunca o chama de nacional.

A separação aparece de forma direta no artigo 81. Nacionalidade é o que se tem ao nascer uruguaio ou filho de uruguaio, e ela não se perde. A cidadania legal, ao contrário, se perde se o titular se naturalizar depois em outro país.

“A nacionalidade não se perde nem mesmo por se naturalizar em outro país.”

Constituição da República Oriental do Uruguai, artigo 81, 1967 (tradução livre)

O QUE O CIDADÃO LEGAL NÃO FAZ

A Presidência fica fechada. O artigo 151 exige que o presidente seja cidadão natural, com 35 anos completos. O mesmo vale para o vice.

O Parlamento abre com espera. O artigo 90 pede cinco anos de cidadania para ser deputado, e o artigo 98 pede sete anos para ser senador, contados da data da carta.

O cargo público também tem carência. O artigo 76 diz que o cidadão legal só pode ser nomeado para emprego público três anos depois de receber a carta; professor de ensino superior é exceção prevista no mesmo artigo.

O passaporte foi o ponto de atrito mais visível. Por anos, o documento do cidadão legal trazia no campo de nacionalidade o país de nascimento, e alguns países recusaram visto ou entrada porque liam ali uma pessoa sem nacionalidade uruguaia. Para o brasileiro, o campo continua dizendo o que ele é para Montevidéu: cidadão, nascido no Brasil.

 
 

II  A VAGA

Montevidéu contrata quem já mora

O mercado que absorve o brasileiro no Uruguai fica concentrado na capital. Montevidéu reúne a maior parte dos empregos formais do país, e a Zonamerica, zona franca (área com regime fiscal especial para exportar serviços) no leste da cidade, abriga empresas de tecnologia, centros de atendimento e serviços financeiros para clientes de fora.

A tecnologia é o setor que mais aparece nas vagas abertas a estrangeiros. Empresas de software de Montevidéu vendem para os Estados Unidos e a Europa e procuram desenvolvedores, analistas de dados e gerentes de projeto com inglês, e o português do brasileiro vira trunfo nas contas com clientes do Brasil.

O agronegócio forma o segundo polo. Frigoríficos, exportadoras de soja e arroz e as fábricas de celulose da UPM, em Fray Bentos e Paso de los Toros, contratam engenheiros agrônomos, técnicos de manutenção e gestores de logística.

Punta del Este, a 130 quilômetros da capital, puxa o turismo. Hotéis, restaurantes e imobiliárias contratam na temporada de dezembro a março, com forte procura por quem atende o turista brasileiro na língua dele.

Com a residência Mercosul, o brasileiro assina contrato uruguaio sem cota, sem autorização prévia e sem esperar a cidadania.

ONDE A CARTA MUDA A VAGA

No setor privado, a carta de cidadania quase não altera a contratação. A residência permanente já garante cédula de identidade uruguaia, carteira de trabalho, inscrição no BPS (Banco de Previsión Social, a previdência pública) e acesso ao sistema de saúde pelo FONASA (o fundo nacional que financia as mutualistas).

No setor público, a conta é outra. Concursos da administração central, de empresas estatais como a ANTEL, de telecomunicações, e a UTE, de energia, exigem cidadania para a maior parte dos cargos, e o cidadão legal ainda cumpre os três anos de carência do artigo 76.

A universidade pública é a exceção mais útil. A Universidade da República contrata professores estrangeiros, e a carência não se aplica ao ensino superior, o que abre espaço para pesquisador brasileiro com doutorado.

O salário se negocia em pesos uruguaios, com reajuste pelos Conselhos de Salários, as mesas tripartites que fixam o piso de cada categoria. Vaga de tecnologia para cliente externo às vezes paga em dólar, e o contrato precisa dizer em qual moeda cai a remuneração.

 

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III  A ROTA

Da cédula à carta na Corte Eleitoral

A sequência abaixo cobre o brasileiro que chega ao Uruguai sem documento e quer, anos depois, a carta de cidadania legal.

1. Pedir a residência permanente Mercosul na Direção Nacional de Migração, em Montevidéu, ou no consulado uruguaio no Brasil, com passaporte ou RG, certidão de nascimento e antecedentes criminais apostilados.

2. Tirar a cédula de identidade na Direção Nacional de Identificação Civil, com o número de residência em mãos.

3. Morar de forma habitual e guardar prova: contrato de aluguel, recibos de luz e água, holerites e contribuições ao BPS.

4. Contar três anos, com família constituída no país, ou cinco, sem ela, a partir da residência registrada.

5. Pedir à Direção Nacional de Migração o certificado de entradas e saídas do período.

6. Protocolar o pedido na Corte Eleitoral, em Montevidéu, ou na junta eleitoral do departamento, com documentos, provas de meio de vida e duas testemunhas cidadãs que confirmem a residência.

7. Receber a carta de cidadania e fazer a inscrição no Registro Cívico, que emite a credencial cívica (o título de eleitor uruguaio).

O passo quatro concentra o erro mais comum. A residência conta da data em que o brasileiro passa a morar no país, e viagem longa ao Brasil no meio do caminho pode levar a Corte a pedir mais tempo.

O passo seis tem ritmo próprio. A Corte Eleitoral analisa pedido a pedido, entrevista o requerente e as testemunhas e pode demorar meses para decidir.

A carta traz deveres. O voto no Uruguai é obrigatório, e o cidadão legal inscrito que falta à eleição paga multa como qualquer eleitor.

O Brasil não cobra escolha. A Emenda Constitucional 131, de 2023, mudou o artigo 12 da Constituição brasileira, e o brasileiro só perde a nacionalidade se pedir a renúncia de forma expressa. Quem recebe a carta uruguaia continua brasileiro, com CPF, passaporte e título de eleitor.

Com a carta e a credencial cívica, o cidadão legal pede o passaporte uruguaio na Direção Nacional de Identificação Civil. Antes de usá-lo para entrar em país que trata o brasileiro e o uruguaio de formas diferentes na regra de visto, vale consultar o consulado de destino, porque a aceitação depende de como cada governo lê o campo de nacionalidade.

No Uruguai, a carta de cidadania vale voto e cargo; a nacionalidade continua a do país onde você nasceu.

"Você quer o direito de votar em Montevidéu, ou precisa de um passaporte que diga que você é uruguaio?"

Com o peso uruguaio a R$ 0,13, os documentos da residência Mercosul feitos no Brasil, com apostila de Haia (o selo que valida documento público entre países do tratado) na certidão de nascimento e nos antecedentes, mais a tradução de um tradutor público uruguaio, somam cerca de R$ 650, sem incluir a passagem até Montevidéu (cotação de 25/09/2026).

 
 
 
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